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CRÍTICA | 1ª Temporada de Aile

Crítica da primeira temporada de Aile (Foto: Divulgação/Show TV)



Na última terça-feira (31/05) chegou ao fim a primeira temporada de Aile (Família) na emissora Show TV. A telenovela turca trouxe de volta para a TV dois rostos muito populares para as telas, Kıvanç Tatlıtuğ (Amor Proibido) e Serenay Sarıkaya (Medcezir). A produção sob o comando de Kerem Çatay conta com roteiro de Hakan Bonomo (Maraşlı) e direção de Ahmet Katiksis (Kara Para Aşk).

Antecedentes e polêmica

No princípio Aile foi pensada para ser um remake da série de sucesso da HBO, The Sopranos (1999-2007). No entanto, a Ay Yapım (empresa responsável pela produção do drama) não conseguiu chegar a um acordo com a emissora da Warner Bros. Discovery

Diante disso, Hakan Bonomo ficou encarregado de última hora para reformular o roteiro com uma história original. Deu certo? Naaaada! Aile, apesar de conter novos personagens e arcos narrativos diferentes, ainda possui o esqueleto narrativo de The Sopranos. Por exemplo, na versão turca estão presentes a família de mafiosos, a mãe narcisista, o romance problemático entre o protagonista e sua esposa, o tio sacana e a figura da psicóloga que tem como paciente um dos homens da máfia.

Elenco de Aile (Foto: Divulgação/Show TV)


Antes de discutir os pontos positivos e negativos da obra, é importante ressaltar que Aile iniciou na metade da temporada atual na TV turca (setembro-maio), portanto, não pôde chegar a um número maior de episódios. A temporada de inverno inicia em setembro e vai até maio/ princípios de junho do ano seguinte. Depois dessa data a TV otomana abre espaço para as produções de verão: dramas e folhetins infanto-juvenis. Assim sendo, a continuação do melodrama só poderá ser acompanhada em uma segunda temporada, no mês de setembro. Segundo a imprensa turca, inicialmente estão planejados um total de 30 capítulos de 120 min cada.

Balanço da temporada 

Aile se une a uma leva cada vez mais crescente de histórias voltadas para um aspecto psicológico que estão sendo produzidas na Turquia. Aqui o objetivo é claro: além dos conflitos físicos, a psique de cada personagem é uma caixa aberta de prontidão para ser explorada. 

Portanto, não é um drama para se esperar soluções convencionais ou punitivas - o tal Karma - ou ainda uma produção que se apresenta como uma cartilha social. É apenas uma história com personagens disfuncionais. O público precisa entender isso antes de embarcar nesta jornada.

Uma jornada nada convencional (Foto: Divulgação/Show TV)


Nesse sentido, a produção escrita por Hakan Bonomo em colaboração com Erdi Isik, Adilcan Güresçi, Ali Kobanbay e Bengi Özsögüt apresenta eficiência ao desenhar os conflitos internos de cada personagem. No drama, apesar de haver uma linha que separa um conflito de dualidades, não há necessariamente um lado bom e um lado mau. Cada personagem é levado a um estado limite, e as consequências são apenas o reflexo disso como é o caso de Yağmur (Yüsra Geyik), Devin (Serenay), Aslan (Kıvanç), e o próprio pai desde último que tira a própria vida.

Na segunda metade da temporada o roteirista resolveu balançar o drama trazendo a figura de um "vilão" para confrontar os protagonistas. Para isso chamaram um dos astros da televisão turca, o ator veterano Musa Uzunlar (Fatmagül) na pele do vingativo İlyas Koruzade. Além disso, também houve a revelação que Cihan (Nejat İşler) não é filho biológico da família Soykan, mas o sobrevivente de um clã eliminado por seu pai adotivo. 

Ator veterano Musa Uzunlar em Aile (Foto: Divulgação/Show TV)


Ainda assim, Aile não é um melodrama que se preocupa com agilidade, ou que recorre a situações rocambolescas para dar uma sensação de que estar acontecendo algo. O roteiro de Hakan é pragmático e não corre contra o tempo. Todos os conflitos acontecem no tempo limite ideal. Alguns podem até questionar o porquê do casal protagonista ter se casado tão rápido. Bem, essa não é exatamente uma história de amor tradicional. Fiquem ligados.

Paixões agridoces

No primeiro capítulo uma cena em especial chama atenção. Na sequência, Devin recebe uma paciente que lhe relata estar vivendo um relacionamento abusivo com um namorado narcisista. Antes dessa cena é apresentado um fade com o nome de Aslan, e como definição o seguinte texto : "manipulador e narcisista". 

Kıvanç Tatlıtuğ e Serenay Sarıkaya em cena de Aile (Foto: Divulgação/Show TV)


Voltando ao diálogo entre Devin e a paciente, esta última confessa para a psicóloga que o namorado age como se estivesse apaixonado, mas está apenas camuflando seu transtorno de personalidade e seu lado controlador. Aqui claramente o roteiro está descrevendo o relacionamento entre Aslan e Devin, mesmo que muitos fãs romantizem essa relação. Aos poucos Devin está se sentindo manipulada pelo esposo - sem perceber - e já até confessou que não pode viver sem ele. Coincidência ou não, algo parecido foi dito pela sua paciente no primeiro episódio. "Você já se apaixonou por seu carrasco, Srta. Devin?", a paciente questiona. Será que até o final da série Devin vai ter esta resposta?

Não muito distante dali há o relacionamento entre Eko (Umutcan Ütebay) e Yağmur, claramente uma releitura do casal problemático jovem de The Sopranos. Eko surge como uma figura protetora para a desestabilizada Yağmur, porém o abismo é logo ao lado. Ambos são personagens "quebrados", e como disse Miranda Bailey de Grey's Anatomy (2005-atual), depois que uma pessoa se "quebra" é como um jarro, mesmo sendo remendado, nunca voltará a ser como antes.

Christopher e Adriana /  Eko e Yağmur (Foto: Montagem)


Atuações

Com um elenco gigante para os padrões de novelas turcas, Aile é um produto com um elenco talentoso. Kıvanç Tatlıtuğ consegue desenvolver todo o arco controverso de seu personagem, além de mergulhar no drama pessoal sem cair em armadilhas casuais como tampar o rosto na hora de chorar. 

Da mesma forma, Serenay Sarıkaya retornou à TV em grande estilo. Sua personagem apesar de ter um senso do que é certo e errado, vai desenvolvendo diferentes matizes ao longo dos capítulos. Inclusive, a atriz vai de um extremo ao outro com uma performance muito capaz. 

Porém sem dúvidas o grande destaque vai para o trio: Canan Ergüder, Nur Sürer e Nejat İşler. Ambos em papéis de menor destaque, conseguem despertar atenção com atuações fortes sem ultrapassar a linha do equilíbrio e fugir para a caricatura. 

Nur Sürer, Nejat İşler e Canan Ergüder (Foto: Montagem)


Palavra final:

Apesar de ter um enredo simples, Aile consegue eficiência, seja no texto dramático, ou na direção caprichada. Sem dúvidas, a produção turca de maior qualidade da temporada atual.


Nota: 9,0/10,0

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