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CRÍTICA| Kanatsız Kuşlar: uma novela para esquecer

 

Pôster de Kanatsız Kuşlar (Foto: Divulgação/ATV Distribution)

Esta é uma crítica embasada em conceitos teóricos, contudo passível de subjetividade, portanto não deixa de ser uma opinião. Sendo assim, o que está escrito aqui não invalida a visão de terceiros. 

Exibida entre junho de 2017 e maio de 2018, Kanatsız Kuşlar (Broken Wings) é uma telenovela turca transmitida na atv, e produzida pela Koliba Film. A atração conta com as atuações de Melis Tüzüngüç, Ümit İbrahim Kantarcılar, Ahmet Varlı, Fatih Al e Deniz Bolışı nos papéis principais. 

O folhetim teve ao todo 46 episódios com cerca de 150 minutos em média, os quais foram exibidos semanalmente às quintas-feiras. O roteiro conta com a assinatura de Pevin Bozan, Eda Karakoç, Elif Başaran, Burak Kumdakçi, Hakan Haksun e Mert Meriçli. Enquanto isso, Kemal Uzun ficou a cargo da direção até dezembro de 2017. O diretor foi assassinado por um dos figurantes da telenovela. A partir de janeiro de 2018, Serkan Ipekören assumiu o posto e Kemal continuou creditado em homenagem. Contudo, no capítulo 34 original, Serkan cedeu a posição para Adnan Güler, o qual ficou até o final.

Qual o enredo?

Após a morte de seu esposo, Nefise (Deniz) passou a cuidar sozinha dos quatro filhos: a mais velha, Zeynep (Melis); os gêmeros Emre (Emir Ozden) e Cemre (Gizem Güneş); e a caçula Aysun (Eliz Nese Çagin). Contudo, a vida não é fácil e eles estão perto de ser despejados por não quitar o aluguel atrasado. Numa noite Nefise salva a vida de um homem que foi assaltado e deixado para morrer. Este homem resulta ser Muzaffer Karamaner (Fatih Al), um rico empresário e patrão de Azime (Servet Pandur), cunhada de Nefise. 

Depois deste dia, Muzaffer quer a todo custo encontrar a mulher que lhe salvou a vida. Diante disso, Azime convence Nefise a trabalhar para seu chefe. Todavia, Nefise não imagina que a cunhada tem planos ambiciosos em cima disso. Encantado por Nefise, Muzaffer a torna modelo de sua empresa, sem imaginar que ela tem quatro filhos, pois ela oculta esta informação. O empresário é um homem muito rígido e que odeia mentiras. Ele terminou sua relação com Tuba (Seda Türkmen) após descobrir que ela escondia um filho. 

Nefise e seus quatro filhos (Foto: Divulgação/ATV)


Com o tempo, Muzaffer se apaixona perdidamente por Nefise, e a pede em casamento. Diante das dificuldades financeiras, e com os filhos vivendo de favor após a casa deles ser demolida, ela aceita a proposta. Porém, esconde que é mãe. No entanto, esta será uma mentira difícil de esconder, pois os seus quatro filhos acabam indo morar com Azime numa das casas ofertadas para os empregados na mansão. A convivência de Nefise e seus filhos neste local será testada com o rigor de Muzaffer, as ambições de Azime, o ódio da ex do empresário, e uma série de segredos e reviravoltas. 

Azime esconde os sobrinhos em sua casa na mansão Karamaner (Foto: Divulgação/ATV)


Não basta ser clássica

Resgatando elementos do melodrama clássico com uma protagonista madura numa vibe bem Cinderela moderna, o folhetim consegue uma boa introdução. Porém, se perde no que se propõe a seguir. 

Nefise é aquela heroína tradicional, com todos os bons e contras característicos. Ela é a mulher bondosa, humilde e inocente que vira a vida do avesso ao se tornar esposa de um dos homens mais ricos do país. Contudo, a personagem tem uma falha de caráter que o roteiro usa e abusa até cansar: é uma mentirosa nata. 

Muzaffer e Nefise se casam (Foto: Divulgação/ATV)


Covarde, a protagonista foge constantemente da verdade a novela inteira, chegando ao feito de sumir na última semana após revelar o seu maior segredo: Emre, um de seus filhos, na verdade foi roubado do pai quando pequeno e Nefise e o marido na época cuidaram da criança como se fossem os pais biológicos. Anos depois, quando Nefise descobre a verdade, ela prefere esconder tudo de Muzaffer (o pai de Emre, e atual esposo da protagonista), mesmo vendo ele sofrer de culpa por achar que o filho está morto.

Como se não fosse bastante aturar uma heroína sonsa, os demais personagens também não fazem jus ao fato de terem um cérebro. Zeynep, por exemplo, filha mais velha de Nefise, comete uma loucura atrás da outra quando quer se livrar de Ahmet/Kartal (Ahmet) já nas últimas semanas. Para completar, o roteiro faz uso de situações que já não cabiam em 2017/2018, e muito menos hoje em dia. Não basta ser clássica, é preciso ter a atualização necessária.

Ahmet finge sua morte e volta de óculos, lente e um penteado novo como Kartal (Foto: Divulgação/ATV)


Um roteiro preguiçoso

Como telespectador fiel de melodramas otomanos, um dos grandes problemas que identifico é a falta de planejamento dos argumentos narrativos. São personagens que entram e saem sem nenhum compromisso, arcos que se encerram do nada, e situações abertas e esquecidas ao longo das semanas. Infelizmente, isso não é culpa dos roteiristas, mas sim da indústria de TV turca que é uma verdadeira selva onde só os mais fortes saem vivos. Por isso, os escritores têm que fazer um malabarismo para garantir o seu trabalho. E nesse processo, sacrifícios acontecem.

Tuba enlouquece e quer matar Nefise (Foto: Divulgação/ATV)


Kanatsız Kuşlar, todavia, tinha tudo a ser favor. Ainda assim, não entendi certas decisões do roteiro nas últimas semanas. É estranho, por exemplo, encerrar a história sem a protagonista central. A atriz simplesmente não teve cena nenhuma na última semana, apesar de ser creditada. Para justificar isso, de última hora surgiu uma doença mortal que acabou levando a mesma a óbito. Mas o público não viu nada porque a atriz não gravou cena alguma. 

Ademais, em se tratando de continuidade e elaboração de arcos, a trama também capota com tudo. Alguns personagens somem sem conclusão, mesmo dando a entender que podem ser resgatados a qualquer momento. Um exemplo: em determinado momento o filho mais novo de Muzaffer é sequestrado, e Emre, Suat (Yusuf Baymaz) e Aylin (Özlem Gezgin) se unem para resgatá-lo. Durante a operação Aylin se sacrifica ao levar um tiro. Sem saída, Emre e Suat deixam a jovem lá para perseguir os bandidos. Em seguida, os policiais procuram por ela, mas não encontram o corpo. Isso leva a duas possibilidades: ou sequestraram o corpo, ou a personagem conseguiu sobreviver e fugiu do local. Porém tudo isso fica em aberto, e logo é esquecido. Aylin está desaparecida até hoje.

Os quatro filhos de Nefise ficam na rua e se refugiam na mansão Karamaner (Foto: Divulgação/ATV)


Além disso, mais um ponto a se tratar: diálogos expositivos fazem parte da estrutura das telenovelas desde sempre. Isso ocorre pois o público vai chegando ao longo da exibição, e sempre é necessário relembrar o enredo para a audiência recém-chegada. Ainda assim, o excesso disso nunca resulta ser positivo. Em Kanatsız Kuşlar esse uso chega a ser preguiçoso. Os personagens repetem as mesmas frases por semanas. 

Zeynep se apaixona por Onur, meio-irmão de Muzaffer (Foto: Divulgação/ATV)


Assim, diante de situações exageradas como Nefise e os filhos recolhendo resto de vegetais na feira no início da novela, algumas anacrônicas como os preconceitos de Muzaffer (mesmo sendo um homem culto da alta sociedade), e outras sem sentido algum como a chegada de Kemal (Faik Ergin), um homem que amava platônicamente Nefise e fica obcecado por ela, o folhetim dispara um argumento absurdo, irritante, e pobre. Para se ter uma ideia, a maioria dos problemas seriam resolvidos se os personagens contassem a verdade uns aos outros. O roteiro não consegue criar arcos inteligentes, e fica refém de personagens burros para se sustentar.

Kemal é obcecado por Nefise (Foto: Divulgação/ATV)


Direção que abraça o "circo"

A novela teve mais de um diretor ao longo de sua exibição. De acordo com notícias da imprensa local, um dos responsáveis acabou assassinado e foi substituído. Porém, o estilo se manteve. 

Seguindo o tom absurdo do texto, a direção aposta em cenas longas, intensas e com um tom de farsa muito presente. Na mesma linha também se seguiu as interpretações. Como destaque positivo há a trilha sonora, com instrumentais cativantes, além da direção de câmeras e fotografia, sempre competente. 

Cena da novela (Foto: Divulgação/ATV)


Atuações

Sempre prezo pelo natural, e quanto mais contido for o ator/atriz, acredito que melhor para a sua performance. Contudo, aqui as expansões adotadas pelos intérpretes é quase obrigatória. Seria muito difícil dar um tom natural para um roteiro que nunca se leva a sério. Por isso os artistas não economizam em carões, gritos e expressões espalhafatosas.

Servet Pandur, a rainha dos carões (Foto: Foco na Dramaturgia)


Com uma proposta de Cinderela moderna e madura, a novela homenageia o gênero com elementos clássicos, mas tropeça nas próprias armadilhas com situações absurdas e personagens tolos que sustentam as peripécias da narrativa com mentiras. 


Ficha técnica

Título original: Kanatsız Kuşlar

Título internacional: Broken Wings

Episódios (versão original): 46 (150 min cada)

Episódios (versão internacional): 160 (45 min cada)

Distribuição: ATV Distribution

Emissora: ATV

Produtora: Koliba Film

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