Após quase dois anos finalizo a telenovela brasileira O Clone. Obra de Glória Perez exibida no início dos anos 2000, gostaria de ter terminado essa joia antes, porém devido contratempos e questões pessoais, não consegui vê-la com mais rapidez. Ainda assim, foi uma experiência muito proveitosa e quero contar um pouco mais sobre nessa resenha.
A trama é encabeçada por Giovana Antonelli, Murilo Benício, Reginaldo Faria, Vera Fisher e um grande elenco recheado de estrelas. A direção esteve a cargo de Jayme Monjardim.
Sinopse
O Clone conta a história de amor entre Jade (Antonelli) e Lucas (Benício), dois corações apaixonados, mas separados pelo tempo, espaço e culturas. Lucas tem um irmão gêmeo chamado Diogo. No entanto, este falece devido a um acidente de avião. Após este fatídico evento, Albieri (Juca de Oliveira), um médico geneticista, tomado pelo luto de seu afilhado Diogo, decide fazer uma experiência inédita: um clone de Lucas.
Contexto do enredo
O Clone traz à luz um tema inédito e ousado para a época – e até hoje – a clonagem humana. Tendo como referência os testes de clonagem na ovelha Dolly no final do século passado, a roteirista Glória Perez desenvolveu uma história de amor marcada por conflitos culturais, temporais e genéticos. Para isso, ela escolheu como ambientação o Marrocos, um país do Oriente Médio marcado por tradições enraizadas e um apreço considerável pelo passado.
| A cultura do Marrocos ganhou espaço em O Clone (Foto: Divulgação: Rede Globo) |
Ao mesmo tempo, a trama também se desenvolve no Brasil, onde há inúmeros personagens e conflitos muito bem delimitados, e que avançam ao longo da telenovela. Dito isso, O Clone não é apenas uma trama de ficção científica, mas um roteiro que joga na roda o conflito do tradicional x moderno. Para dar mais força a essa abordagem, nada mais atrativo e controverso do que tratar da clonagem humana, um tema que até hoje desperta a curiosidade de cientistas ao redor do mundo. Afinal, a clonagem de seres humanos é um avanço na ciência, um afronte a Deus, ou, simplesmente, é o ser humano brincando de criador?
Esses questionamentos vão fundo em dois principais conflitos do melodrama: religião e ciência. Diante disso, Glória consegue traçar um enredo cativante, forte e recheado de questionamentos. Além disso, a trama explora outros temas de relevância social como a dependência química, a psicopatia, relacionamentos abusivos, empoderamento da mulher e as influências da ciência na vida humana, especialmente nos processos de gravidez não naturais como a inseminação artificial e outras técnicas de reprodução assistida.
| Juca de Oliveira deu vida ao controverso Dr. Albieri (Foto: Divulgação/Rede Globo) |
Personagens complexos
Um dos maiores atrativos dessa telenovela são os personagens e como eles avançam ao longo do enredo. Os protagonistas Jade e Lucas, por exemplo, são apaixonantes, porém, ao mesmo tempo difíceis, pois muitos dos conflitos que os separam decorrem de suas personalidades. Enquanto Jade é uma mulher que não mede consequências de seus atos, Lucas é um homem que tem dificuldade em assumir o controle de sua própria vida.
Esse fato pode gerar antipatia nos personagens em grande parte do desenvolvimento do enredo, todavia, acredito que isso reforça a verossimilhança da trama e é um ponto de destaque. Os protagonistas são dois seres humanos afetados por fatores externos. Jade foi criada em um ambiente mais liberal e teve uma mudança radical ao se mudar para o Marrocos, um país onde os costumes são preservados apesar do tempo. Por outro lado, Lucas, mesmo vivendo no Brasil, sempre se viu como uma sombra de seu irmão gêmeo Diogo, e por isso nunca conseguiu ser quem ele era de verdade. Após a morte de Diogo, tudo isso piora, e ele começa a viver uma vida que não era sua, mas sim de seu falecido irmão. Até a namorada do irmão ele assume. Isso mostra que apesar das realidades diferentes, as amarras que limitavam os personagens eram emocionais. Com todo esse contexto, é inverossímil cobrar clareza e atitude de duas pessoas tão maltratadas pelo destino.
| Jade e Lucas, um casal apaixonante (Foto: Reprodução/Memória Globo) |
Outro destaque é a antagonista Maysa, vivida brilhantemente pela atriz Daniela Escobar. No início, Maysa sofre pela morte do namorado. Então, ela passa a se envolver com Lucas, e se torna esposa dele. Com o passar dos anos, devido à indiferença do marido, Maysa se converte em uma mulher elitista, fria e desprezível, prejudicando até seu relacionamento com a filha, Mel (Débora Falabella). Após Mel se envolver com drogas, Maysa é confrontada várias vezes com seu estilo de vida. Ela entende que para ajudar a filha, primeiro ela precisa se ajudar. É um desenvolvimento de personagem admirável. Do ódio ao amor, literalmente.
Dramão
Uma abordagem que ganhou muito destaque na novela foi a dependência química. Ao longo da trama, alguns personagens, incluindo a filha do protagonista, passam a se envolver descontroladamente com o uso de drogas. Esse arco é extenso e até chega a ser exaustivo em alguns momentos, pois parece um ciclo vicioso. Ao mesmo tempo que pode ser o reflexo de um esticamento da obra, o plot também ganha veracidade ao explorar a realidade de muitos dependentes químicos que vivem um ciclo de anos para se livrarem da doença.
| A novela abordou a dependência química (Foto: Divulgação/Rede Globo) |
Tema recorrente
Uma temática que é muito presente na novela ao longo de seus 221 capítulos é a presença de personagens manipuladores, mentirosos e oportunistas, como a psicopata Alicinha (Cristiana Oliveira); a dupla de mãe e filha Odete (Mara Manzan) e Carla (Juliana Paes); os engraçados, porém ordinários, Ligeirinho (Eri Johnson) e Raposão (Guilherme Karan). A presença desses personagens reforça a sagacidade da autora em construir personagens engenhosos e reais.
Personagens e bordões marcantes
Para compor alguns núcleos paralelos, Glória Perez emergiu com força no imaginário popular, com figuras excêntricas, porém divertidas, e de fácil assimilação pelo telespectador. Para citar alguns, temos Dona Jura (Solange Couto) com sua personalidade barraqueira e seu “Né brinquedo não!”; a oportunista Odete com suas idas ao piscinão de ramos, onde “cada mergulho é um flash”, e seu sonho de ter uma cobertura em ramos e se livrar dessa “gentinha”, dentre personagens do mundo árabe que contageiam a audiência com expressões corriqueiras, como “Inshallah”, “Salaam Aleikum”, “Fui jogado no vento”, “Arrastado no chão da medina” e muitas outras.
| O Clone é recheada de personagens marcantes (Foto: Divulgação/Rede Globo) |
Uma direção contemplativa e épica
Além do enredo apaixonante e personagens encantadores, O Clone é uma obra bem dirigida. Jayme Monjardim imprimiu um estilo fantasioso para a novela, com belíssimos enquadramentos e cenas que destacam todo o lado exótico do Marrocos. Desde o primeiro capítulo, a sensação é que você está dentro de um conto de fadas épico.
Roteiro jogado no vento
Embora o roteiro da telenovela seja bastante promissor, é impossível não detectar alguns problemas muito presentes, como a evidente conveniência de roteiro. Certas situações demoram muito tempo para acontecer, como a aparição do Clone, e claro, sua posterior revelação aos demais personagens. No entanto, a base que sustenta esse atraso é frágil e marcada por desencontros oportunistas.
Ademais, o roteiro é marcado por diversas elipses, as quais muitas vezes só fazem sentido para um determinado núcleo. Por exemplo, é como se para alguns personagens passassem meses, enquanto para outros, apenas alguns dias. A mudança só era visível de um lado. Inclusive, na reta final, isso se torna ainda mais presente e enfraquece argumentos fortes como o desenvolvimento de Mel com as drogas.
Para completar, alguns núcleos se resolvem magicamente. A impressão que fica é que a própria autora não leva muito a sério o roteiro que está desenvolvendo e decide embarcar em um universo lúdico e ilusório. O problema é que até certo ponto não era essa a ideia aparente no enredo. No entanto, mais uma vez, por conveniência, “vamos voar”.
| A novela tem problemas de roteiro, mas just ok (Foto: Divulgação/Rede Globo) |
Interpretações fortes
Daniela Escobar brilha como a conflituosa e amarga Maysa, enquanto Stênio Garcia transborda carisma no papel do sempre sábio Sid Ali. Osmar Prado merece destaque especial como o sofrido Lobato, entregando uma atuação extremamente natural, marcada por uma modulação de diálogos precisa e sensível, que suaviza a técnica e aproxima o personagem da realidade. Completam esse time de excelência nomes como Cristiana Oliveira, Eliane Giardini, Solange Couto e Débora Falabella, que elevam ainda mais o nível da produção.

Osmar Prado brilha na condução naturalista de seu personagem Lobato (Foto: Divulgação/Rede Globo)
O final da trama
O Clone chega ao fim com uma mensagem de empoderamento pessoal. A trama revela os traços mais cruéis da humanidade, ao mesmo tempo que tenta fazer o público refletir sobre escolhas. O desenrolar para o tema da clonagem é simbólico, uma vez que na época ainda não se sabia muito bem o que ia acontecer com Dolly. Por isso, a autora decidiu não ir muito além e encerrou esse arco de uma forma mais sentimental, tal como Frankenstein de Mary Shelley, porém sem a parte trágica. Alguns personagens tem desfechos abertos, com a possibilidade de o público imaginar. E isso é ótimo, pois alguns contextos são complexos e podem reverberar de forma diferente em cada um.
A magia dessa trama te cativa, é convidativa e encantadora. O Clone é um clássico da dramaturgia nacional e tem seus méritos muito bem defendidos.
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