REVIEW | Coração de Mãe (Sandik Kokusu) tem coração, mas falta pulso ao roteiro

Exibida no Brasil pela Rede Record, Coração de Mãe (Sandik Kokusu), é uma produção turca escrita por Melis Civelek (O Segredo de Feriha) e Zeynep Gür (Yasak Elma), com direção de Nezaket Coşkun e Altan Dönmez. A novela foi ao ar na Turquia entre dezembro de 2023 e março de 2025 em 50 capítulos semanais de 120 minutos em média cada.

O folhetim, também uma produção da empresa O3 Medya, é comercializado para o mercado internacional pela Eccho Rights em uma versão de 161 capítulos de 45 min. Aqui no Brasil, a emissora da Barra Funda exibiu a obra em uma versão mais compacta - em 131 episódios, exibidos de segunda a sexta-feira, às 21h00 em dias normais, e às 21h30 em dias de jogo.


Novela turca Coração de Mãe (Foto: Divulgação)



Sinopse:

Karsu (Özge Özpirinçci) é uma mulher na faixa dos 30 anos que acabou de dar à luz ao seu terceiro filho, fruto de seu casamento com o empresário Reha (Necip Memili). A família de Karsu tem uma vida cheia de luxos em Adana, porém tudo muda quando o pequeno Kuzey (Sarp Kaan Altınçapa) some durante uma viagem à Istambul com a avó Filiz (Demet Akbağ), mãe de Karsu.

A partir deste desdobramento, Karsu culpa a mãe pelo ocorrido e a relação entre as duas estremece negativamente. Ao mesmo tempo, seu casamento com Reha também é afetado, principalmente quando Karsu descobre que ele tem uma relação extraconjulgal com Hande, sua melhor amiga. 

Três anos se passam e Karsu reencontra Kuzey, porém ele agora se chama Deniz e está sendo criado por um pescador chamado Ozan (Şahin Sancak). Após confirmar que ele é seu filho perdido, Karsu decide mudar sua vida. Ela se separa de Reha e parte em busca de sua independência em Istambul, mas para isso precisa se reconciliar com a mãe e abdicar de todo o conforto que sempre teve.


Kuzey se perde da avó durante uma viagem à Istambul (Foto: Eccho Rights)


Drama sobre maternidade?

A novela é vendida desde o início como um enredo sobre uma mãe que tenta se reestruturar após um evento traumático. No entanto, esse argumento tem data de validade e logo a trama abre espaço para uma série de esquetes de comédia, além de um entra e sai de personagens que ameaça a coesão do roteiro.

O drama de Karsu com os três filhos, além da relação de Filiz com ela e Irmak (Meriç Aral), sua irmã, ganha contornos ao longo da produção, embora não seja o fio condutor da narrativa. Esta ausência de um arco forte que liga todos os pontos revela um roteiro que não sabe que história quer contar.


Karsu se muda com os filhos para Istambul (Foto: Eccho Rights)


A impressão que fica é que as roteiristas foram criando tramas conforme a obra ia ganhando mais capítulos, e por isso, não conseguiram estabelecer um eixo narrativo que se conecta. E, na verdade, isso faz sentido a considerar como funciona a indústria de novelas turcas. São obras abertas que dependem totalmente da resposta da audiência. 

Desfalques narrativos mal justificados

A primeira fase da novela desenvolve o relacionamento romântico entre Karsu e Atilla (Metin Akdülger). Este último é filho de Hasan (Uğur Yücel), um perigoso mafioso que está preso, e por isso, fica encarregado dos negócios da família. Para se esconder de seus inimigos, Atilla se muda para o mesmo condomínio onde Karsu mora com os filhos e assume a identidade de um escritor de livros com um visual desleixado.


Irmak revela para a mãe que tem um caso com o marido dela (Foto: Divulgação)


No entanto, o ator pediu para sair da novela e seu personagem vai embora. Na trama, isso é justificado com a ideia que Karsu não suporta colocar os filhos em perigo ao ter uma relação com um homem da máfia. Mas o que acontece depois? Filiz, mãe de Karsu, acaba se casando com Hasan, ou seja, o próprio mafioso, já que Atilla só estava substituindo o pai. E o que todos acham disso? Vão comemorar em uma festa de casamento em Urfa. Pelo visto, o problema não era ter um mafioso na família. Faltou coerência narrativa!


Metin Akdülger como o protagonista Atilla (Foto: Divulgação)


Ademais, as saídas sem sentido não param por aí. Logo depois, Mert (Sercan Badur), outro filho de Hasan, decide ir tentar carreira musical internacional e também vai embora. Depois disso, nem Atilla e nem Mert são citados nunca mais. É como se Hasan nunca tivesse tido filhos. 

Em determindo momento, os antagonistas Lale (Seda Türkmen), Reha e Hande (Ece İrtem) também decidem deixar o condomínio Recanto do Paraíso. A primeira vai para Amsterdã, e os dois últimos retornam para Adana. Todavia, mais uma vez o roteiro que vemos a seguir dá continuidade como se essas figuras não existissem. Por exemplo, conhecendo a personalidade de Reha, é estranho ele abdicar dos filhos tão facilmente, ainda mais depois que Karsu se casa com Bora (Engin Öztürk).

Na segunda fase, Karsu engata um romance com o seu novo chefe, Bora (Foto: Divulgação)


 

Tramas esquecidas

A maior frustração que um enredo pode ter é começar contar uma história e depois não concluir. Foi isso o que aconteceu com três tramas da novela: 

I - O filho de Karsu que desapareceu teve o nome alterado de Kuzey para Deniz. A produção poderia ter abordado isso dando enfoque na questão psicológica da criança, mas isso é deixado de lado, e ninguém mais estranha o garoto continuar sendo chamado de Deniz até o fim;

II - Ozan, pai adotivo de Deniz/Kuzey é assassinado por um dos capangas de Atilla. Karsu descobre tudo e fica irritada, mas mente para o filho ao dizer que Ozan apenas viajou. O estranho é que depois disso Deniz simplesmente esquece da existência de Ozan e nunca mais volta a perguntar pelo homem que cuidou dele nos últimos três anos;

III - Irmak, irmã de Karsu, traiu a própria mãe ao casar com o próprio padrasto. Após as duas superarem isso, Filiz descobre que Adnan (Levent Can) está traindo a filha e a avisa. Para se vingar, Irmak trama para colocar Adnan na cadeia, e o plano dá certo. Adnan, por sua vez, jura vingança. No entanto, o personagem evapora da novela e fica por isso mesmo. Ninguém mais cita ele depois disso.

Kivanç (esquerda) e Irmak (direita) (Foto: Divulgação)


Todos esses arcos são esquecidos ainda no meio da novela, por isso a frustração é maior ainda, pois a trama continua normalmente ignorando tudo isso.

Mais problemas

Coração de Mãe carece de um roteiro sólido e consciente. É uma produção que segue um fluxo narrativo insconstante. Caso a trama seguisse a linha sobre maternidade até o final, conectando as relações familiares e preservando algum suspense, seria mais interessante. 

Na reta final, quando geralmente as tramas avançam, esta obra abre espaço para conflitos novos totalmente opacos, como a chegada de Nazan (Zerrin Nişancı), mãe de Bora que detesta Karsu só porque ela é uma mulher divorciada e com três filhos. Além de batida, essa intriga familiar é introduzida ao final do segundo tempo e soa chata e até anacrônica, pois Nazan é apresentada como uma mulher culta. 

Nazan aparece na reta final para atrapalhar o casamento do filho (Foto: Divulgação)


O que dá pra resgatar?

Mesmo com alguns deslizes de roteiro, Coração de Mãe tem uma excelente produção visual e técnica. A direção da telenovela é cativante e bem embalada com uma sonoplastia atraente. Além disso, a fotografia do melodrama ganha contornos mais iluminados conforme o drama vai cedendo espaço para tramas leves e engraçadas. É só comparar as cores do primeiro capítulo com o último.

Inclusive, o lado cômico da atração é o ponto mais positivo. Personagens que entram na segunda fase como a atrapalhada Gulnaz (Gözde Seda Altuner), a ambiciosa Ayça (Nesrin Cavadzade) e o apaixonado Hakan (Pamir Pekin) trazem um ar divertido para a novela que cativa. Estes personagens brindam momentos de descontração e fazem muito sucesso.

Gulnaz e Ayça (Foto: Divulgação)

Outro destaque positivo é a soberania feminina no drama. As personagens centrais são mulheres e elas roubam totalmente a cena. Karsu, Filiz, Irmak, Gulnaz e Ayça são românticas, autênticas, mas também tem ambições e independência. Elas são personagens modernas, porém sem deixar de lado os elementos clássicos que rodeiam o melodrama. Inclusive, esse é um fator muito presente em novelas turcas. As personagens femininas são fortes, intensas e dominam os enredos com suas histórias de superação e empoderamento. 


Por fim, o excelente elenco do folhetim é outro destaque. Özge Özpirinçci tem uma presença de protagonista impressionate. Além disso, a atriz oscila do drama para a comédia com uma sutileza tão natural. O mesmo pode se destacar de outras atrizes como a veterana Demet Akbağ e Meriç Aral. Ainda no elenco feminino, Gözde Seda Altuner entrega uma personagem memorável e cheia de energia. 

Cena de Coração de Mãe (Foto: Divulgação)


No campo masculino também cabe destacar as interpretações de Uğur Yücel, Pamir Pekin, Metin Akdülger, Engin Öztürk e Necip Memili. Outros artistas também fazem um bom trabalho, ainda que careçam de mais técnicas e se apoiam muito no carisma como são os casos de Nesrin Cavadzade, Seda Türkmen e Serkay Tütüncü.


Cena do último capítulo da novela (Foto: Divulgação)


Avaliação Final

Roteiro: (2,5/4,0)

Personagens e atuações: (2,0/3,0)

Qualidade Técnica: (2,0/2,0)

Direção e ritmo: (0,5/1,0)


NOTA FINAL: 7,0/10,0


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