ROMPENDO PARADIGMAS: A televisão não cabe em caixinhas

Outro dia me deparei com um texto de um professor de roteiro que defendia uma ideia que, à primeira vista, parece fazer bastante sentido: “série não é novela”. A argumentação era mais ou menos assim: em uma série, temos episódios, enquanto em uma novela temos capítulos. O episódio seria uma unidade com começo, meio e fim, enquanto o capítulo seria apenas uma parte de uma história maior. Confesso que achei a ideia interessante no começo. Mas, quanto mais eu lia, mais pensava: será que é realmente tão simples assim? E foi aí que comecei a discordar.

Adriana Esteves e Débora Falabella em cena da telenovela Avenida Brasil (Foto: Divulgação/Rede Globo).


Afinal, série e novela são coisas tão diferentes assim?

Eu acho que o primeiro problema está justamente em colocar “série” e “novela” como se fossem categorias totalmente opostas. “Série de televisão” diz respeito, antes de tudo, a uma obra audiovisual apresentada de forma seriada. Ela pode ter comédia, drama, terror, romance, ficção científica, policial, fantasia, melodrama, já a “novela” tem uma história um pouco mais complicada. Isso é verdade, mas nem tanto.

No Brasil, quando falamos em novela, quase automaticamente pensamos na telenovela diária: capítulos de segunda a sábado, dezenas ou centenas de capítulos, vários núcleos, protagonistas, vilões, romances, reviravoltas e aquele capítulo de sexta-feira terminando com um gancho para a segunda. Mas isso é uma característica da nossa tradição televisiva, e não necessariamente uma regra universal. Além disso, nem sempre foi assim. É só lembrar da primeira telenovela brasileira Sua Vida me Pertence, exibida pela extinta TV Tupi entre dezembro de 1951 a fevereiro de 1952 em apenas 15 capítulos, os quais eram exibidos duas vezes na semana.

Sua vida me pertence, primeira novela brasileira (Foto: Divulgação).


A indústria brasileira construiu uma cultura muito forte em torno da telenovela. Por aqui, “novela” acabou ficando praticamente sinônimo de um determinado modelo de produção televisiva. Só que em outros lugares as coisas não funcionam exatamente assim. E aí entra uma coisa que acho muito importante: gênero não é formato. 

Pôster da produção norte-americana Revenge (Foto: Divulgação).


Imagine uma história de vingança cheia de romances, segredos familiares, traições e conflitos amorosos. Isso pode tranquilamente ter características de melodrama ou telenovela. Agora imagine que essa história seja produzida com oito episódios de uma hora e lançada em uma plataforma de streaming. Ela deixou de ter características de telenovela simplesmente porque agora tem oito episódios? Não necessariamente. Da mesma forma, uma produção pode ter 100 capítulos e não seguir exatamente aquilo que esperamos de uma telenovela brasileira tradicional.

É por isso que acho importante separar algumas coisas: gênero é uma coisa; formato é outra; serialidade é outra; e modo de distribuição é outra. Elas podem se misturar, mas não são a mesma coisa.

Mas e episódio e capítulo?

É aqui que a discussão fica ainda mais interessante. Existe uma ideia muito difundida de que episódio equivale a série capítulo diz respeito a novela, só que isso é muito mais uma convenção linguística e cultural do que uma regra da narrativa. Nós brasileiros simplesmente nos acostumamos a falar assim. Mas basta olhar para outros países para perceber que não existe uma lei universal determinando qual palavra deve ser usada. 

Força de Mulher, novela turca de grande sucesso no Brasil (Foto: Divulgação/Rede Record).


Na Turquia, por exemplo, é muito comum encontrar o termo bölüm para designar uma parte de uma produção televisiva. E isso pode aparecer tanto em produções que nós chamaríamos de séries quanto em produções que chamaríamos de novelas. Ou seja: a história está sendo contada em partes. O idioma é que escolheu uma determinada palavra para essas partes. Isso mostra que a palavra que usamos para nomear uma parte da obra não determina a estrutura da obra.

Mas episódio não tem começo, meio e fim?

Pode ter. Mas não precisa necessariamente ter. Esse é outro ponto do argumento que me incomodou. Uma série pode perfeitamente ter episódios que terminam sem resolver o conflito apresentado. Aliás, muitas fazem isso. Um episódio pode começar uma história, desenvolvê-la e terminar com um enorme gancho que só será resolvido no episódio seguinte, e ainda assim continua sendo um episódio.

Da mesma forma, um capítulo de novela pode apresentar um conflito próprio, desenvolvê-lo e encerrá-lo. Portanto, dizer que o episódio necessariamente possui começo, meio e fim enquanto o capítulo é apenas um pedaço da história é uma simplificação. Funciona como uma maneira didática de explicar determinados modelos de narrativa, mas não como uma regra universal.

E as séries que parecem novelas?

Essa é uma das coisas que mais gosto de observar. Existem séries que, olhando superficialmente, parecem muito com aquilo que no Brasil chamamos de novela. Tem todos os elementos melodramáticos. Isso acontece porque a ideia de "novela" está mais relacionada com elementos narrativos que um formato propriamente dito. Mas o que vai determinar o nome do produto não é isso, mas sim a herança cultural da indústria local.

Breakind Bad é um novelão, mas todos conhecemos como uma série (Foto: Divulgação).


Ademais, vale lembrar que série dá uma ideia de sequência. Por exemplo, uma série de livros (biblioteca), série de músicas (playlist), série de filmes (franquia) e por aí vai. Assim sendo, a própria telenovela nada mais é que uma série de televisão melodramática.

Afinal existe diferença entre série e novela?

Essa é a parte em que eu acho que a resposta fica muito mais interessante. Não existe uma única diferença. A maneira como classificamos uma produção depende de vários fatores:

  • história da televisão daquele país;
  • indústria audiovisual;
  • duração;
  • periodicidade;
  • quantidade de episódios ou capítulos;
  • modelo de produção;
  • forma de distribuição;
  • gênero;
  • linguagem;
  • expectativa do público;
  • tradição cultural.

No Brasil, por exemplo, aprendemos que novela é uma coisa e série é outra. A novela normalmente está associada a uma produção longa e diária. A série, tradicionalmente, esteve muito mais ligada à exibição semanal e a temporadas. Mas isso não significa que essa distinção seja uma verdade universal. Ela é, em grande parte, uma construção da nossa própria televisão.

O streaming bagunçou ainda mais tudo

E talvez seja por isso que essa discussão esteja ficando cada vez mais interessante. Com o streaming, as fronteiras ficaram ainda mais confusas.

Hoje podemos ter uma produção brasileira com oito episódios que tem uma história completamente melodramática. Podemos ter uma produção turca com episódios enormes, exibidos semanalmente. Podemos ter uma série americana com episódios praticamente independentes. Podemos ter outra em que cada episódio depende totalmente do anterior. Podemos ter uma antologia em que cada episódio conta uma história diferente. E podemos ter uma produção que parece uma novela em praticamente tudo, menos no nome que recebeu no catálogo.

Stranger Things segue todo o estilo narrativo de uma verdadeira telenovela (Foto: Divulgação/Netflix).


Então tentar encaixar todas essas obras em uma fórmula única fica cada vez mais difícil.

Talvez a pergunta esteja errada. Em vez de perguntar: “Série é diferente de novela?”, talvez seja melhor perguntar: “Como diferentes culturas e indústrias criaram maneiras diferentes de produzir e classificar narrativas seriadas?” Aí a discussão fica muito mais interessante. Porque percebemos que aquilo que chamamos de “série” no Brasil não necessariamente significa exatamente a mesma coisa que em outro país.

E o mesmo vale para “novela”. Até as palavras mudam de significado dependendo do lugar. No espanhol, por exemplo, novela pode significar simplesmente romance literário, enquanto telenovela é utilizada para a produção televisiva. Ou seja, não dá para pegar uma palavra e tratá-la como se carregasse o mesmo conceito em todas as culturas.

No fim das contas...

Eu não acho que a frase “série não é novela” seja completamente inútil. Ela pode ser uma maneira interessante de chamar atenção para diferenças importantes entre tradições televisivas.

O problema começa quando transformamos essa frase em uma espécie de regra universal. Série não é necessariamente uma história episódica. Novela não é necessariamente apenas uma história dividida em capítulos. E episódio e capítulo não são conceitos estruturalmente opostos.

São palavras e categorias que foram sendo construídas ao longo da história da televisão, da literatura, do cinema e das diferentes culturas. No fundo, uma série é uma obra seriada que pode assumir inúmeras formas. Talvez a televisão seja justamente interessante por isso: ela nunca respeitou muito bem as nossas caixinhas. E talvez o erro esteja menos nas obras e mais na nossa vontade de encontrar uma definição perfeita para colocá-las dentro de uma delas.

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