O produtor mexicano Juan Osorio resolveu levar ao ar uma nova versão da produção argentina Amor en Custodia (2005). Sob o título de Guardián de Mi Vida, esse folhetim é a terceira versão mexicana da obra. As primeiras foram Amor en Custodia, produzida pela TV Azteca, e em 2012 uma versão da Televisa chamada Amores Verdaderos (2012). Dessa vez os protagonistas são Silvia Narrarro, Daniel Arenas, Paulina Goto e Diego Klein. O roteiro é adaptado pela mesma equipe das últimas novelas de Osorio: Pablo Ferrer García-Travesí e Santiago Pineda Aliseda, A direção é por conta de Eric Morales.
De que se trata?
No enredo, Sofia (Silvia Navarro) é uma empresária muito renomada. Ela está casada com Gonzalo (Sergio Sendel), com o qual tem uma filha chamada Bárbara (Paulina Goto). Em de suas visitas à sua casa de campo, Sofia é encurralada por alguns homens que querem lhe fazer mal, no entanto, acaba sendo salva por Franco Gallardo (Daniel Arenas), um homem simples do campo que foi na Fazenda da ricaça pedir trabalho como capataz e desconfiou da movimentação.
A partir disso, temendo sua segurança e de sua filha, Sofia resolve contratar guarda-costas. Todavia, ela quer Franco como seu segurança pessoal. No início ele recusa e indica o recém conhecido Salvador (Diego Klein). Sofia contrata Salvador, porém para cuidar da segurança de sua filha, enquanto isso, convence Franco a aceitar ser seu guarda-costas. A chegada de Franco e Salvador nas vidas de Sofia e Bárbara desatam novos sentimentos, além de uma teia de segredos, traições e inúmeras reviravoltas.
História certa, desenvolvimento equivocado
Na sinopse da novela, é apresentado que o principal fio condutor da narrativa são os relacionamentos entre mãe e filha e seus respectivos guarda-costas. Ambas se deparam com sentimentos proibidos por seus funcionários, e eles por elas. Aqui, dois fatores estão em jogo: as diferenças sociais e os amores comprometidos. Por isso, a coesão narrativa exige um desenvolvimento mais lento, alinhado à jornada dos personagens. Entretanto, esse processo é atropelado em nome de um roteiro mais ágil — embora, mais adiante, essa escolha não se justifique, como explicarei a seguir.
Roteiro dá aula errada
Franco e Sofia, por exemplo, deveriam passar por várias etapas até finalmente ficarem juntos: primeiro contato, atração, vergonha, amizade, empatia, ciúme, amor, culpa, desapego e, só então, o primeiro beijo. No entanto, eles se conhecem no capítulo 1; até o capítulo 5, Franco já está flertando com sua chefe; e, no capítulo 10, os dois se beijam pela primeira vez. É evidente que a construção do casal pula etapas que seriam essenciais para dar mais força ao relacionamento. É inegável que existe química entre os atores, mas isso pouco adianta quando o enredo não cria situações capazes de transformar essa química em uma relação dramaticamente convincente.
Nesse sentido, a comparação com Amores Verdaderos é inevitável por se tratar de outra adaptação da mesma história, mas não parte de uma tentativa de medir qual versão é mais querida. Ao observar as duas construções, fica evidente como o relacionamento do casal maduro na versão de 2012 é desenvolvido de maneira mais gradual e coerente com os conflitos que envolvem os personagens. A diferença entre as duas adaptações ajuda a evidenciar o que falta à nova produção: tempo dramático para que o vínculo entre Sofia e Franco seja construído antes de chegar aos momentos decisivos da relação.
Na adaptação de Juan Osorio, uma das mudanças iniciais foi abalar o relacionamento do protagonista com a esposa desde o começo. Por isso, nesta releitura, o casamento de Franco está comprometido por causa da traição de Georgina (Alejandra Ambrosi). Em tese, essa alteração facilitaria a tarefa de fazer o público torcer para que Franco se apaixonasse por Sofia, mesmo ainda estando casado. Afinal, o personagem já havia sido ferido pela infidelidade da própria esposa. Talvez muitas pessoas tenham comprado o casal justamente pela química dos atores, mas, para mim, isso não foi suficiente.
O problema é que a alteração não é acompanhada por um desenvolvimento compatível com o conflito moral que ela poderia produzir. Seria mais interessante fazer Franco e Sofia passarem por todas as etapas que citei anteriormente, permitindo que cada aproximação representasse uma pequena vitória sobre os obstáculos que os separam. Dessa forma, quando finalmente acontecesse o primeiro beijo, ele teria um peso muito maior. Como a novela decide fazer o contrário, a dinâmica acaba ficando mal estruturada.
Franco é um homem que vem do campo e, portanto, o roteiro parece apresentá-lo como alguém de valores mais tradicionais e princípios morais rígidos. Isso ajuda, inclusive, a justificar sua decisão de continuar casado com Georgina mesmo depois de descobrir a traição. Quando passa a trabalhar para Sofia como segurança, seria natural esperar que ele mantivesse certa distância e tratasse a patroa com formalidade. Nos diálogos, isso até aparece: Franco continua se referindo a ela como “Senhora Sofia”, mesmo depois de os dois se tornarem um casal.
O problema é que suas atitudes contradizem essa postura desde os primeiros capítulos. O roteiro estabelece formalidade e distância no discurso, mas, ao mesmo tempo, constrói uma intimidade excessiva entre os dois pouco depois de se conhecerem. Franco e Sofia rapidamente passam a agir como pessoas que já possuem uma conexão muito mais profunda do que a história efetivamente mostrou. Isso me incomodou porque a proximidade entre eles parece anteceder a própria construção do vínculo.
E essa pressa acaba atingindo também a coerência do protagonista. Franco beija Sofia quando ela ainda está casada com Gonzalo, o que me faz questionar o quanto o personagem é coerente com os próprios princípios que o roteiro estabeleceu para ele. Afinal, foi justamente uma infidelidade que fez seu casamento entrar em crise. Ele conhece a dor de ser traído e demonstra, ao longo da história, que considera esse comportamento grave. No entanto, quando se trata de beijar a esposa de outro homem, parece não existir um conflito moral proporcional.
Não considero necessariamente um problema que Franco seja contraditório. Pelo contrário: personagens contraditórios podem ser muito interessantes. O problema é quando essa contradição não é trabalhada pelo roteiro. Se Franco tivesse resistido ao sentimento por Sofia, sentido culpa, tentado se afastar e, ainda assim, acabado cedendo, o beijo poderia representar uma verdadeira ruptura de seus valores. Seria um momento de transformação do personagem.
Mas, como a novela acelera o relacionamento, essa ruptura perde força. O beijo deixa de ser o resultado de um longo conflito interno e passa a parecer apenas mais uma etapa rápida do romance. Assim, aquilo que poderia ser um dos grandes momentos dramáticos da história acaba tendo pouco impacto.
Por conta disso, tudo que vem depois envolvendo este casal não me empolgou. Pelo contrário, eu desenvolvi até antipatia pelo protagonista, dada todas as incoerências narrativas - e visuais - apresentadas, como o cabelo muito cuidado, a roupa sempre bem ajustada ao corpo, além de uma postura classuda que não combina com o perfil de homem desalinhado do campo que o personagem tem no início. Para se ter ideia, até sua forma de falar não está condizente com a personalidade original. Do nada ele solta "yo y mi bocota de hipopotamo", um bordão do personagem também presente nas versões anteriores, mas aqui soa totalmente forçado, pois o comportamento de Franco sugere algo mais requintado.
Até no acerto, há erro
Paralelamente, assim como nas versões anteriores, o casal jovem é simpático e cativa. Barbie e Salvador são cheios de energia, conflitos e química. Apesar disso, mais uma vez o roteiro assume o posto de vilão dessa relação e deixa tudo a perder com decisões equivocadas e imaturas.
Se com Franco e Sofia a relação avança toda atropelada, para Barbie e Salvador esse não é necessariamente um problema, pois ambos não são comprometidos. Todavia, os problemas surgem depois. O casal tem um início até promissor, mas logo ficam de escanteio com enredos infantis e desnecessários. Ou seja, que não acrescentam em nada ao amadurecimento do par. Somente na reta final os roteiristas voltam a dar uma trama mais madura, com a participação de Salvador na recuperação de Barbie. Entretanto, tarde demais, até lá eu já havia perdido qualquer conexão com eles.
Ademais, alguém pode me dizer por que resolveram colocar Bárbara e Remédios (Roberta Damián) como universitárias? As personagens podiam ter conflitos mais ponderados. Ainda por cima, acharam de bom tom colocar Carlo (Pedro Baldo), aparentemente da mesma idade das duas, como professor da faculdade. E ele chega até a casar com a Bárbara em determinado momento da trama.
Mais equívocos
Ainda em relação ao roteiro, o desenvolvimento problemático não afeta apenas o núcleo principal. Os personagens coadjuvantes parecem marionetes de uma trama sem vínculo algum. Marisol (Jessica Decote) e Bolero (Rodolfo Salas) deveriam ser outro casal empolgante, mas nada acontece. Ambos não tem nenhuma personalidade e soam superficiais e apáticos. Tendo visto o que foi este casal em Amores Verdaderos, a decepção fica mais escancarada. Uma pena.
Somada a essa lista incluo o arco do cozinheiro Rulo (Luis Rodríguez) e de Limón (Nacho Ortiz). Rulo trabalha para a família Peralta-Avitia e está apaixonado por sua colega Cariño (Natalia Madera), porém ela acha que ele é gay. Para manter o disfarce, ele acaba embarcando em um flerte com Limón, que é de fato homossexual. Esse plot todo é ridículo e até anacrônico. A ideia é gerar humor, mas o resultado é catastrófico. Em Amores Verdaderos esses personagens existem, porém numa roupagem muito mais consciente e até ousada para a época, pois o cozinheiro é gay e se apaixona por outro homem que esconde sua sexualidade. Ambos se envolvem e até chegam a se casar.
Nessa versão também deram destaque para uma personagem que é amiga da protagonista jovem, Monik (Valeria Santaella). Ela começa tímida, porém do mais absoluto nada ela começa a surtar, tramar contra Barbara, e mais tarde contra Remedios. Vira uma vilã sem nenhuma sutileza e a interpretação da atriz só torna o resultado mais catástrófico.
Além disso, em determinado momento da atração, Andrómeda, irmã gêmea de Sofia, aparece com um ar de novidade em relação ao último remake da obra. Esperei muito desse plot, pois parecia algo interessante, embora clichê. No entanto, a chegada da personagem é justamente a fase barriga da novela. Ela passa anos tramando uma vingança que parece uma guerra fria. Seu plano genial é usurpar Sofia e agir como uma descontrolada dando socos, tratando os outros mal e fingindo desamor com Franco. Nota 0 para a querida.
Para completar, ela rouba todo o destaque de Grecia (Kimberly dos Ramos), outra vilã que o roteiro esquece que é malvada. Com a chegada da aliada, a loira fica andando de um lado para outro recitando umas três linhas de texto e pronto. Pra não dizer que é tudo superficial, deram um plot de gravidez para ela, além de um pequeno destaque nos cinco minutos do segundo tempo.
Over do over
A equipe de maquiagem e vestuário dessa novela devia estar de mal humor durante toda a condução da obra, pois alguns atores pareciam ter saído de um filme dos anos 70. Inés (Andrea Noli), outra personagem mal escrita, surge com um cabelo (ou peruca?) cheio de laquê; Gonzalo usa um estilo meio viking, com um rabo de cavalo terrível, além do próprio Franco que de uma hora para outra parece ter tido aulas de etiqueta e passa a se vestir muito bem. Ninguém percebeu isso, não?
Direção perdida
Eric Morales sempre foi um diretor cobiçado em novelas mexicanas. Em suma, por causa de sua capacidade em criar sequências bem dirigidas e empolgantes. Porém em Guadián de Mi Vida ele parece ter chegado ao burnout. Só isso explica as cenas frias e sem emoção, além dos cortes de cenas nada sutis, que só deixam mais evidente a ansiedade do roteiro.
Dá pra resgatar
Felizmente, essa produção também tem pontos positivos que valem a pena ser mencionados. Um deles é sobre a doença de Bárbara. Nas outras versões a psicologia da personagem é deixada de lado em certo momento da história. Aqui, no entanto, a trama não só ganha atenção, como novas camadas. Por causa do excesso de exercícios físicos, Bárbara adquire uma síndrome chamada Rabdomiólise. Esse quadro clínico acontece pela destruição rápida das fibras do tecido muscular esquelético.
A relação entre Bárbara e Remedios também é um acerto desta versão. Nas anteriores as duas são inimigas mortais e possuem vários atritos, tanto verbais quanto físicos. Em Guardián de Mi Vida o relacionamento delas preserva em parte essas características, porém propõe também a construção de uma amizade entre elas que funciona.
Outro destaque é a trilha sonora. A produção contém músicas empolgantes e que dão um charme para as sequências de romance. A minha preferida é o tema cantada por Paulina Goto intitulado "Cuídame de mí". Esta canção embala as passagens românticas do casal Bárbara e Salvador. A sonoplastia combina com as cenas e torna a experiência mais instigante.
Ademais, a produção de Juan Osorio é bem cuidada no aspecto técnico e visual. Com exceção do quarto de Bárbara, que possui uma porta de madeira saída do forno e o tom meio minimalista que não combina com a personagem, os cenários são espaçocos e bonitos. A realização abre o bolso também para a condução de muitas cenas externas, inclusive fora do México, na Argentina.
De modo geral, é uma telenovela bonita, com qualidade de imagem evidente e uma boa sonoplastia.
Atuações no tom e fora dele
Silvia Navarro é uma atriz de renome e não precisa provar o seu talento para ninguém até esse ponto. Ela já entregou perfomances muito intensas e reais em trabalhos anteriores. Em Guadián de Mi Vida seu destaque é como Andrómeda. Embora a personagem seja mal conduzida no roteiro, a atriz consegue salvar com uma interpretação segura, natural e eficiente.
Outros nomes femininos que se destacam junto a Silvia são os de Paulina Goto, Roberta Damián, Alejandra Ambrosi, Paloma Woolrich e a pequena Mía Fabri. As duas primeiras são atrizes que tem crescido nos últimos anos, em parte porque passaram um tempo se dedicando a estudar e aprimorar suas técnicas.
Enquanto isso, no elenco masculino, alguns nomes deixam uma presença positiva como é o caso de Diego Klein, Alejandro Camacho, Rodrigo Murray, Rodolfo Salas, Victor González, Luis Rodríguez e Tiago Correa.
Por outro lado, apesar de reconhecer o carisma e beleza do ator Daniel Arenas, isso não é suficiente para delinear uma boa interpretação. O ator estava afastado dos melodramas há um tempo, e esse seu retorno evidencia que ele precisa baixar o tom. A impressão que eu tenho ao vê-lo em cena como Franco Gallardo é que ele passa para o personagem uma certa soberba que não combina. É como se o personagem fosse autoconsciente e soubesse que é o galã romântico da atração.
Exagero é o caminho mais fácil para uma interpretação mal definida. Alguns artistas externam os sentimentos ao máximo para conseguir passar veracidade, porém o efeito é o oposto. Nesta telenovela temos alguns casos assim, representados pelas interpretações de Gabriela Platas, Pedro Baldo, Natalia Madera, Valeria Santaella, Sergio Sendel, Andrea Noli e Kimberly dos Ramos.
Em resumo, Guardián de Mi Vida faz uma atualização coerente da trama base, porém é ansiosa, imediatista e dilacera o principal motor de um bom melodrama: a emoção.
AVALIAÇÃO FINAL
Roteiro e argumentação: (2,0/4,0)
Personagens e atuações: (1,5/3,0)
Qualidade técnica: (1,5/2,0)
Direção e ritmo:(0,5/1,0)
Nota final: 5,5/10,0

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