A novela se passa em três fases, sendo que cada fase representa uma época diferente. O início se dá em 1967, passando pelos anos 70, e chegando ao fim por volta dos anos 80 com a eclosão do golpe militar na Turquia. O enredo é inspirado em vivências da infância do roteirista. Inclusive, em entrevistas, ele revelou que ele se vê representado na narrativa por meio do personagem Osman (Emir Berke Zincidi).
Por se tratar de uma telenovela longa e com mais de uma fase, vou analisar de forma isolada cada momento do melodrama, destacando o que mais gostei e também o que não.
SPOILERS A SEGUIR
Primeira fase - 1967: traição, injustiça e tragédias familiares (Capítulo 1 ao 38)
A trama tem início com o retorno de Ali (Erkan) para casa após mais uma de suas viagens como capitão de um navio. No entanto, dessa vez, ele volta disposto a abandonar sua família para ficar com Caroline (Wilma), uma estrangeira que ele se envolve em uma de suas aventuras. Em sua casa vivem Cemile (Ayça), sua esposa, e seus quatro filhos: a estudante de Direito Berrin (Yıldız); os jovens estudantes de ensino médio Aylin (Farah) e Mete (Aras); e por fim o pequeno Osman. Quando Cemile descobre que Ali tem outra mulher, ela surta, chegando até a apunhalar a amante com uma faca. Por causa disso, a protagonista fica presa durante algumas semanas. Depois que Cemile sai da prisao, Ali se casa com Caroline e coloca ela e os filhos na rua.
| Cemile descobre que está sendo traída (Foto: Reprodução/Kanal D) |
Desamparada, Cemile se muda com os filhos para uma casa afastada, que junto com Ali, pretendia reformar no futuro. No entanto, mesmo divorciada de Ali, o ex-marido de Cemile continua a se envolver em seu meio, atrapalhando sua vida social, profissional e até mesmo romântica.
| EU SOU INSUPORTÁVEL! |
Quando Cemile se aproxima de um pescador misterioso chamado Hikmet (Orhan Alkaya), Ali fica obcecado e começa a perseguir a ex, chegando até a violentá-la sexualmente. Essa é a parte mais desconfortável da trama, pois a sequência é presenciada pelo filho pequeno do ex-casal e conduzida apenas como elemento narrativo, sem nenhuma consequência para Ali. O roteiro até chega a usar esse acontecimento para mostrar como as leis funcionavam naquele momento no país, com a polícia preferindo acreditar na mera palavra de um homem, do que na denúncia de uma mulher. Nesse período, a trama também expõe as condições insalubres que muitas mulheres sofrem ao se submeter a fazer abortos clandestinos por falta de assistência nos hospitais públicos. Com esse ponto, a novela reforça a necessidade de um atendimento médico seguro, algo que só veio a acontecer no país em 1983 com a legalização do aborto.
| Cemile e seu filho pequeno, Osman (Foto: Divulgação) |
Paralelo a tudo isso, há várias tramas secundárias muito interessantes, como o passado da vilã Caroline; a relação de Berrin com o esquerdista político Ahmet (Tolga Güleç) e o nacionalista de direita Hakan (Salih Bademci); o amor de Mete por sua professora de música Inci (Yeliz Kuvancı); Aylin que se casa com um rapaz deficiente apenas para ficar próxima do irmão dele, Soner (Mete Horozoglu), que é o homem que ela ama, além de um núcleo de comédia estrelado pelo irmão de Ali, Kemal (Mehmet Gürhan) e sua esposa fofoqueira Neriman (Zeyno Eracar).
| Berrin se apaixona por Ahmet, militante de esquerda (Foto: Divulgação) |
A primeira fase chega ao fim com Ali invadindo o casamento de Cemile e Hikmet e assassinando o noivo. Em seguida, ele é pego de surpresa por um tiro vindo de sua mãe, Hasefe (Meral Çetinkaya), que tenta colocar um ponto final nas loucuras do filho.
Segunda fase - anos 70: vingança, recomeços e mais tragédias (capítulo 39 ao 79)
Na minha opnião, aqui o roteiro escorrega em tramas esgotadas, repetitivas e muito enroladas, resultando em um dos momentos mais chatos do melodrama. Essa fase começa com um salto temporal de alguns anos, com Ali saindo da prisão por causa de um decreto de anistia. Cemile herda parte da herança de Hikmet e investe em um ateliê. Berrin casa obrigada com Hakan e tem uma filha com ele. Mete forma uma banda juvenil de muito sucesso. Aylin continua casada com Murat (Serhat Osman Karagöz), mas amando Soner. Caroline mata seu amante na Holanda e volta pra Turquia atrás do filho pequeno que abandonou.
| FLAGRADOS |
Basicamente esses capítulos giram em torno de Ali buscando redenção por seus atos criminosos, e a introdução de um novo vilão chamado Kenan (Hüseyin Avni Danyal), o qual é meio-irmão de Hikmet e busca vingança por ter sido menosprezado pelo pai no passado.
| Kenan entra na novela como um vilão detestável (Foto: Divulgação) |
A nova fase começa com o roteiro forçando uma recuperação milagrosa para Ali. Ele sai da prisão totalmente irreconhecível, andando de muletas por causa do tiro que levou. Mas, com algumas semanas de fisioterapia, recupera os movimentos, passa uma tinta no cabelo, faz a barba e, plus: temos o velho Ali de volta.
| Cara feia pra mim é fome |
Esse retorno do personagem me incomodou muito, pois ele fez coisas horríveis no passado e quer se reaproximar de todos como se não tivesse feito nada de tão grave — ou como ele mesmo repete em alguns momentos: “ninguém me entende”. Na verdade, eu é que não entendo como o roteirista achou de bom tom colocar esse personagem para ter ceninhas com Cemile, sendo que ele a estuprou capítulos atrás. Eles não chegam a reatar a relação, mas é incômodo vê-lo abraçando Cemile ou, ainda, acompanhar uma sequência em que ela cai na tentação de cheirar o sobretudo dele. Entendo que a intenção era humanizar o personagem, mas a forma como isso é feito é completamente desagradável, pois o texto trata Cemile e Ali como um mero casal separado, quando o conflito entre eles é muito mais complexo e grave: Ali é o violador de Cemile. Se a intenção da autoria era fazer o público sentir a dor do personagem, deveria ter amenizado seus atos na fase anterior. O que concluo disso tudo é que o roteiro usou todo esse arco do estupro da protagonista apenas como um elemento para criar mais drama. Felizmente, Cemile não perdoa Ali. E ele faz o quê? Se vitimiza, deixando uma carta dizendo que vai tirar a própria vida — e assim o faz. Não senti falta.
| É ISSO AÍIIIII |
Ademais, o arco envolvendo a vingança de Kenan é longo e, por muitas vezes, cansativo. O personagem como vilão cumpre sua função com excelência. É daqueles antagonistas que parece imbatível. Todavia, a casa dele começa a cair na reta final da temporada. O desfecho do vilão é prático demais, e confesso que fiquei frustrado com a resolução desse plot. Mas seguimos.
Outro argumento que me cansou nessa fase é o de Mete. Parecia que eu estava vendo uma reprise da trama do personagem na primeira temporada. Novamente ele se apaixona por alguém; esse alguém está comprometido, ele a ajuda, depois entra em problemas por ter feito isso, vai preso, reata o romance, e por fim, volta para a estaca zero.
| Foge comigo, eu sou chave de cadeia |
De positivo destaco o personagem Osman que começa a ir pra escola nesses capítulos, e isso acaba rendendo momentos cômicos e muito fofos. Além disso, a relação entre o garotinho e Selma é uma das coisas mais emocionantes da novela.
| Pequeno Osman (Foto: Reprodução/Kanal D) |
Terceira fase e última - Final dos anos 70 e início dos anos 80 (Capítulo 80 ao 120)
Após vários capítulos monótonos, a novela volta aos trilhos com uma terceira fase recheada de emoções. Novamente há uma passagem de tempo de muitos anos. Osman já é um jovem na casa dos 15-16 anos e está no ensino médio. Ele é amigo de Aydın (Yağız Can Konyalı), um jovem revolucionário de esquerda envolvido na política. Nesse primeiro momento, o roteiro pisa no freio para construir com muita calma esse arco, e o resultado é satisfatório, pois o público é preparado para uma sequência de episódios de muita violência, injustiças e crueldade.
| Aydın e Osman (Foto: Reprodução) |
Osman acaba se tornando alvo de perseguição política, colocando não apenas a si próprio, mas toda a sua família em perigo, justamente no período em que ocorre o golpe militar de 1980 e os militares tomam o poder na Turquia. Com exceção de Ali e Aylin, os demais personagens continuam na trama com histórias renovadas. Além disso, novos integrantes chegam ao elenco e dão um novo fôlego à narrativa.
Arif (Muhammet Uzuner) entra na novela como um comunista que se dedica a escrever poesias. Ele aluga a antiga casa de Cemile e, consequentemente, acaba se aproximando dela e de sua família. Não demora muito para os dois embarcarem em um romance. Esse arco é uma das melhores decisões narrativas dessa fase, pois Cemile merecia ter alguém ao seu lado: um homem honesto, que a respeitasse e a amasse como ela merece. E, felizmente, esse homem é Arif. Depois de tudo o que a personagem passou, vê-la finalmente construindo uma relação baseada em afeto e respeito é um dos aspectos mais gratificantes dessa parte da história.
| Cemile e Arif (Foto: Divulgação) |
Após a morte de Aylin durante o parto, a vida de Soner vira do avesso. Ele chega a negligenciar os cuidados da própria filha, a carismática Deniz (Nisa Melis Telli). Para dar um pouco de leveza a esse núcleo, chega Bahar (Mine Tugay), a nova babá de Deniz. Ela conquista rapidamente o carinho da menina e, aos poucos, também ajuda Soner a recuperar a vontade de seguir em frente. Os dois logo se apaixonam e formam um casal bastante agradável de acompanhar.
| Deniz e Bahar (Foto: Reprodução/Kanal D) |
Mas a novela não demora a lembrar que estamos diante de um dramalhão. A parte mais dura da história vem a seguir com a entrada do novo vilão, Tuğrul (Serhat Özcan). Primo de Arif, ele surge movido pelo desejo de vingança e, graças à sua aliança com os militares, transforma a repressão política em uma ameaça direta aos protagonistas. Primeiro, Mete é preso; depois, Arif também acaba capturado e levado para uma mansão utilizada pelos militares para deter e torturar pessoas inocentes.
| Tuğrul fazendo cosplay de uma Catalina Creel de calças |
Uma tempestade de emoções
A novela tem um início equilibrado, um meio enfadonho e recupera o gás na fase final. É uma produção que surpreende pela ousadia da narrativa em criar situações inesperadas desde o início: a protagonista ferindo a amante do marido, o próprio filho tentando matar o pai em um incêndio, uma criança testemunhando o abuso da própria mãe pelo pai, além de cenas de violência política, rebeliões, tortura e tantas outras situações.
| (Foto: Divulgação) |
Ou seja, em termos de ritmo, a produção tem momentos bons e ruins. O problema não está no melodrama em si, mas na maneira como algumas histórias são prolongadas - e como essa extensão é executada.
Coşkun Irmak não tinha experiência como roteirista de televisão, pois sua trajetória era ligada à literatura. Ainda assim, aceitou o desafio e não fez feio. O autor consegue desenvolver o enredo com muita criatividade.
A trama é contada pelos olhos de Osman, o filho caçula de Cemile e Ali. Talvez seja justamente por isso que algumas situações pareçam tão negligenciadas: estamos acompanhando acontecimentos gigantescos através do olhar de uma criança. Mas a cereja do bolo está justamente nessa ingenuidade de Osman ao observar tudo o que acontece ao seu redor. O escritor consegue capturar esse olhar e transmiti-lo por meio das narrações em voz over que acompanham toda a saga familiar.
| Osman é o narrador da novela (Foto: Divulgação) |
A política, por sua vez, não aparece apenas como pano de fundo. Coşkun Irmak não poupa críticas ao sistema político da época e mostra as contradições do discurso dos militares, que justificavam suas ações em nome da proteção dos direitos e da ordem. Sem papas na língua, o texto se posiciona ao denunciar a crueldade e as injustiças que marcaram aquele período da história turca. A política invade a vida dos personagens e transforma conflitos particulares em tragédias coletivas.
Cada personagem é uma cebola
Os personagens, além de complexos, são muito humanos. Essa característica é especialmente bem aproveitada em figuras como Hakan (Salih Bademci), que começa como um mauricinho que defende os ideais políticos do pai sem compreender suas consequências. Quando percebe o lado cruel da política, passa a desafiar o próprio sistema e se alia a Ahmet na luta por uma sociedade mais igualitária.
| Hakan tem uma das melhores jornadas da novela (Foto: Divulgação) |
Cemile, mesmo sendo uma protagonista extremamente sofredora, é uma heroína forte e resiliente. Sua capacidade de sempre levantar a cabeça e seguir em frente é admirável. Mais do que uma mulher que simplesmente sofre as consequências das escolhas dos outros, ela questiona sua própria condição dentro de uma sociedade marcada por estruturas profundamente patriarcais. É nesse aspecto que a obra se aproxima de uma perspectiva feminista, ainda que nem sempre consiga desenvolver essas questões com a mesma profundidade.
Outro destaque da atração é a vilã Caroline. Loira, dissimulada e muito ambiciosa, a personagem deixa sua marca como uma das figuras mais memoráveis da novela. Sua popularidade foi tamanha que acabou permanecendo na trama até o final, sempre tramando e criando intrigas por onde passa.
| EU SOU A MAIORAL DESSA NOVELA |
Cinema em sua essência mais dramática
É de deixar os olhos marejados com a beleza visual dessa produção. A fotografia captura, com um olhar contemplativo, o aspecto emocional de Istambul entre o final dos anos 1960 e o início dos anos 1980.
Os personagens ganham protagonismo por meio de lentes sensíveis e intimistas, que registram suas fragilidades em pequenos gestos: um olhar perdido, um sorriso acalentador ou simplesmente o silêncio diante de uma tragédia. A direção de fotografia utiliza muitos planos abertos para destacar as belíssimas ambientações e recorre a enquadramentos mais fechados quando precisa revelar os conflitos internos dos personagens.
Para completar o conjunto, a sonoplastia é preenchida por trilhas sonoras hipnotizantes e músicas tradicionais turcas, além de alguns clássicos internacionais da época, como Such a Night, de Elvis Presley; You Are My Destiny, de Paul Anka; e a emocionante Annie's Song, de John Denver.
Um time de estrelas
O elenco é um dos grandes trunfos da novela. Ayça Bingöl entrega uma interpretação rica e emocional como Cemile, sustentando boa parte do peso dramático da história. Erkan Petekkaya, por sua vez, constrói um Ali repulsivo, contraditório e difícil de esquecer, ainda que as escolhas do texto para o personagem nem sempre sejam satisfatórias.
| Ayça Bingöl como Cemile (Foto: Divulgação) |
Aras Bulut İynemli demonstra uma impressionante profundidade emocional nos momentos mais tensos de Mete, enquanto Farah Zeynep Abdullah transforma Aylin em uma personagem marcante, cheia de personalidade e intensidade. Emir Berke Zincidi, ainda criança, entrega uma atuação hipnotizante como Osman, conseguindo transmitir com naturalidade o olhar inocente que conduz boa parte da narrativa.
Wilma Elles também merece destaque como Caroline, uma vilã que poderia facilmente cair na caricatura, mas ganha intensidade graças à interpretação da atriz. Salih Bademci, por sua vez, constrói com sensibilidade a transformação de Hakan, acompanhando o amadurecimento político e emocional do personagem.
Veredito
Öyle Bir Geçer Zaman Ki é uma trama forte sobre como o desamor pode destruir uma família, mas também sobre como os laços familiares podem sobreviver mesmo depois das maiores tempestades. É uma novela ambiciosa, que mistura melodrama familiar, romance e contexto político para contar uma história que atravessa décadas e acompanha as transformações de uma família junto às mudanças de seu próprio país.
| Cena da novela (Foto: Reprodução/Kanal D) |
Nem tudo funciona. A segunda fase sofre com tramas prolongadas, repetições e algumas decisões narrativas que me fizeram perder o interesse em determinados momentos. Ainda assim, a produção consegue recuperar o fôlego na reta final e entrega novamente aquilo que tinha de melhor: personagens marcantes, grandes conflitos, reviravoltas e uma narrativa visualmente sofisticada.
No fim, Öyle Bir Geçer Zaman Ki é uma novela irregular, mas muito competente em provocar emoções. Começa intensa, tropeça no caminho e volta aos trilhos na última fase. E talvez seja justamente essa montanha-russa de sentimentos que explique por que, mesmo depois de quase seis meses acompanhando essa saga familiar, ainda tenha tanta coisa para dizer sobre ela.
AVALIAÇÃO FINAL
Roteiro e argumentação: 3,0/4,0
Personagens e atuações: 2,5/3,0
Qualidade técnica: 2,0/2,0
Direção e ritmo: 0,7/1,0
NOTA: 8,2
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