REVIEW | La Ley del Corazón 2: Uma sentença favorável ao amor

Exibida entre 2018 e 2019 na Colômbia, La Ley del Corazón 2 finalmente deu às caras na minha grade. Eu vi a primeira temporada pouco depois de sua exibição original e foi uma das melhores novelas que já tive o prazer de assistir. No entanto, quando anunciaram uma continuação, fiquei com receio se realmente era necessário. Confesso que tive medo do que poderia acontecer com os meus casais preferidos. Agora, após muito adiar, conto o que achei dessa sequência que dá um desfecho para essa grande história.



A produção dessa vez conta com os roteiros de Ricardo Sarmiento, Natalia Santa e Felipe Agudelo. Este último é irmão da criadora da primeira temporada, Mónica Agudelo, e agora junto com uma equipe de colaboradores, dá seguimento ao projeto da irmã com novas tramas e personagens. A direção é por conta de Sergio Osorio e Víctor Mallarino. Ao todo foram exibidos 146 capítulos no canal RCN, no entanto, a versão internacional foi reeditada para um total de 140 episódios de 40 minutos.

A trama

Julia (Laura Londoño) retorna do exterior após passar um tempo fazendo uma especialização. Nesse período que esteve fora sua relação com Pablo (Luciano D'Alessandro) desmoronou e os dois acabaram rompendo o relacionamento. Ao mesmo tempo, o escritório Cabal, Domínguez, Garcéz e Associados sofre uma quebra devido a um escândalo de corrupção envolvendo um fundo de investimentos. Por causa disso, Pablo, Maria del Pilar (Mabel Moreno) e cia acabam organizando um novo escritório - embora mais simples - para continuarem trabalhando em casos jurídicos enquanto lidam com os problemas financeiros do projeto anterior. O retorno de Julia para Bogotá ao lado de Adela Zambrano (Alejandra Borrero), uma renomada advogada penalista, que está em um divórcio conturbado com o poderoso Alonso Olarte (Jorge Cao), vai mudar toda a dinâmica do enredo com novas tramas, intrigas e casos jurídicos difíceis.

Encerrando ciclos

Assim como a temporada anterior, os novos capítulos seguem o mesmo esquema. Os advogados precisam lidar com suas vidas pessoais, ao passo que desenrolam diferentes casos jurídicos, desde o direito familiar, até questões mais complexas envolvendo assassinatos e crimes de corrupção. O foco é nos três casais centrais: Julia e Pablo; Maria del Pilar e Nicolás (Iván López); e Catalina (Lina Tejeiro) e Alfredo (Rodrigo Candamil). 

Fico muito feliz ao ver que estava errado, pois essa continuação deu o fim merecido para esses personagens e suas tramas. Quem viu a primeira parte sabe que a novela termina com um gostinho de quero mais, o qual nessa nova temporada é aproveitado muito bem. A princípio, considerei um crime terem separado Julia e Pablo, e pior ainda, colocado Pablo para ter um novo relacionamento. Porém, é como dizem, os fins justificam os meios. Era necessário para o enredo mostrar a fragilidade que ainda permeava o casal, e como eles precisavam enfrentar esses conflitos internos para poderem ficar juntos de uma vez. 

Foi duro ver Pablo com outra, mas seguimos


Julia, após tudo que aconteceu com Camilo (Sebastián Martínez), embora tenha encontrado o amor ao lado de Pablo, ainda tinha muitas inseguranças. Pablo, por outro lado, encontrou uma relação estável com a advogada, mas precisava aprender a ceder de vez em quando. Além disso, tudo isso serviu para provar mais uma vez a química maravilhosa entre esses personagens. Foi maravilhoso ver os dois se reaproximando enquanto lutavam com unhas e dentes para não ceder ao sentimento que os uniu um dia.

No final, o bem venceu e é isso que importa


Na primeira parte, além de Julia e Pablo, um casal que roubou toda a minha atenção a partir da metade da trama foi Cata e Duperly (Alfredo). Ela era apaixonada por ele, porém ele demorou muito a perceber. Depois, quando ela desistiu desse amor, ele descobriu que a amava e passou a lutar por ela. 

CASAL DO ANO!

O casal fez tanto sucesso que o final da primeira temporada gira todo em torno se os dois vão conseguir ficar juntos. Nessa segunda parte, eles já estão casados, porém enfrentam alguns problemas matrimoniais. Um deles envolve a impossibilidade de Alfredo em ter filhos ao mesmo tempo que Catalina sonha em ser mãe. O roteiro consegue desenvolver muito bem esse casal sem recorrer a clichês do gênero, e assim preservar o carisma e romantismo que fez o par ficar muito querido pelo público. 

Outro casal que teve um desenvolvimento gigante nessa seção foi Nicolás e Maria del Pilar. Eles passaram de flertes para um relacionamento real, chegando até a casar e ter filhos gêmeos. Gostei de ver os personagens tendo que passar por um processo de reconstrução para poderem lidar com essa nova etapa.

Nicolás finalmente consegue casar com Maria del Pilar 

 

Maria del Pilar teve que abrir mão de sua fixação que uma mulher só poderia ser independente se não se apegasse a um casamento e filhos, enquanto Nicolás teve que renunciar ao seu lado conquistador para se dedicar única e exclusivamente à mulher que ele sempre disse amar.

Tramas cativantes

Ademais, a novela não se limitou a desenvolver bem os relacionamentos românticos. Em termos de enredo, a produção conseguiu manter uma linha narrativa coerente, atrativa e bastante envolvente. Logo no início, somos apresentados a um arco narrativo de grande impacto: o esquema de corrupção envolvendo o Fundo Platinum, que desencadeia uma disputa judicial entre os advogados liderados por Adela e o escritório de seu ex-marido, Alonso. Esse conflito se estende até a metade da trama e proporciona excelentes momentos, mantendo o interesse do público ao longo de seu desenvolvimento.

Advogatas em destaque, AÇÃO!


Outros arcos também merecem destaque nesta segunda temporada, especialmente aqueles que exploram a trajetória de personagens secundários. É o caso do jovem advogado Marcos Tibatá (Juan Pablo Barragán). A decisão dos roteiristas de introduzir seu pai biológico nessa altura da história foi bastante acertada, sobretudo pela maneira descontraída e sutil como essa novidade foi incorporada à trama. Além disso, a chegada de Marcial Mahecha (Fernando Arévalo) reforça um dos elementos mais importantes da novela: sua vertente cômica, que contribui para equilibrar os momentos dramáticos e conferir leveza à narrativa.

Marcos descobre toda a verdade sobre seu pai


Na reta final, a novela ganha contornos ainda mais intensos, com uma sequência de acontecimentos marcada pela adrenalina e pelo suspense em torno de Gonzalo Vallejo (Manuel Navarro), o empresário corrupto e pai de Lucía (Laura de León). 

Gonzalo Vallejo, pai de Lucía


Os roteiristas conduzem com habilidade o desenvolvimento do ódio de Gonzalo por Pablo e Julia, construindo uma escalada de tensão que culmina nas tentativas do empresário de atentar contra a vida do casal nos últimos capítulos. Trata-se de um desfecho que intensifica o conflito e confere maior dramaticidade à conclusão da história.

Julia na mira de um assassinato na reta final

Paralelamente aos grandes arcos narrativos, a novela também se destaca pela variedade de casos jurídicos apresentados ao longo dos capítulos, muitos deles marcados por reviravoltas interessantes e dilemas morais complexos. Entre os que merecem menção estão os casos do homem com três esposas; do pai que tentava impedir a mulher de realizar um aborto; do psiquiatra acusado de assédio; da legalização da eutanásia; da violência intrafamiliar envolvendo um casal de mulheres; dos irmãos que disputavam a guarda de uma criança; do bullying no ambiente escolar; do homem intersexo que buscava o reconhecimento de sua identidade feminina; do estupro e da defesa dos direitos da vítima; da mulher diagnosticada com câncer em decorrência de negligência médica; e da mulher cuja gravidez envolvia uma fecundação heteropaternal, entre tantos outros.

Cada babado, né?


Essa diversidade de situações jurídicas contribui para manter a narrativa dinâmica, evitando que a novela fique excessivamente concentrada nos conflitos pessoais dos protagonistas. Ao mesmo tempo, permite explorar diferentes dilemas humanos e sociais, ampliando o alcance temático da produção e oferecendo ao público histórias capazes de provocar reflexão.

Apelo social

Assim como na temporada anterior, La Ley del Corazón 2 mantém, nesta nova leva de capítulos, seu compromisso com a abordagem de problemas sociais da Colômbia e do mundo. A trama preserva seu caráter engajado ao expor diferentes mazelas da sociedade e apresentar personagens que lutam por uma realidade mais justa, livre e igualitária.

Um dos casos mais chocantes é o de Alicia, vítima de estupro

Ao utilizar o universo jurídico como ponto de partida para discutir questões que ultrapassam os tribunais, a novela transforma muitos de seus casos em oportunidades para abordar direitos, preconceitos, desigualdades e conflitos éticos. Dessa forma, a produção vai além do entretenimento e reafirma a importância de discutir temas socialmente relevantes por meio da ficção, aproximando o público de realidades que, muitas vezes, permanecem invisibilizadas ou são tratadas de maneira superficial.

Desfalques a bordo

Apesar de apresentar uma estrutura narrativa coerente, La Ley del Corazón 2 começa a causar certa estranheza a partir do capítulo 80. A impressão é de que a trama teria sido inicialmente planejada para um número menor de episódios, o que explicaria o encerramento prematuro de alguns arcos e a saída de diversos personagens antes da conclusão da história. Com o prolongamento da produção, os roteiristas parecem ter precisado adaptar os rumos da narrativa à agenda e à disponibilidade do elenco. Nesse contexto, personagens importantes, como Adela, Elías (Mario Ruiz) e Macarena (Giovanna Andrade), entre outros, acabam deixando a novela bem antes de seu desfecho, provocando mudanças perceptíveis na dinâmica da trama.

E assim, Era uma vez um romance sáfico...


Um caso particularmente delicado é o de Jaime, pai de Julia. Em determinado momento da narrativa, o personagem, interpretado por Javier Gnecco, deixa de aparecer e passa a ser mencionado apenas ocasionalmente, até que, na reta final, sua morte é revelada. A novela, inclusive, reserva um momento especial para que os personagens se despeçam dele, conferindo à sua partida uma carga emocional significativa. Por trás dessa ausência, porém, existe uma circunstância que ultrapassa a ficção: o ator faleceu durante a produção da novela. Diante disso, sua ausência torna-se perceptível ao longo da trama, e a solução encontrada pelos roteiristas para dar um desfecho à história do personagem acaba adquirindo um significado ainda mais sensível. É um daqueles casos em que a realidade interfere diretamente nos rumos da ficção, exigindo da produção uma maneira de lidar com uma perda que não estava prevista na narrativa.

Funeral do personagem Jaime


Outro aspecto que merece ressalvas é a ausência de conclusões satisfatórias para algumas histórias que acabam esquecidas pelo caminho. Um exemplo é o arco do jovem Brayan (Alejandro Osorio), que luta para ser reconhecido pela mãe biológica e, após finalmente conquistar esse reconhecimento, se dispõe a ajudar sua meia-irmã, diagnosticada com leucemia. Entretanto, a participação do personagem termina justamente quando sua história parecia caminhar para um desfecho significativo. Não chegamos a descobrir se Brayan consegue doar a medula óssea à irmã, tampouco acompanhamos a recuperação dos dois. A interrupção deixa em aberto uma trama que havia conquistado relevância emocional e merecia uma conclusão mais cuidadosa.

Outro caso é o de Iván Estefan (Manuel Sarmiento), cuja trajetória apresenta uma oportunidade interessante de redenção. Apesar dos sinais de transformação do personagem, sua participação na narrativa termina de maneira abrupta, sem que seu arco receba um encerramento à altura do desenvolvimento apresentado. Em determinado momento, cheguei a imaginar que ele poderia protagonizar um envolvimento romântico com Lucía, especialmente porque os dois chegam a se relacionar. Essa possibilidade, contudo, não se desenvolve, deixando a sensação de que havia espaço para explorar melhor essa relação e conferir maior consistência à trajetória do personagem.

Lucía e Iván chegam a se envolver, mas romance não avança


É claro que essas lacunas não comprometem a qualidade da obra como um todo, mas deixam pontas soltas que se tornam cada vez mais perceptíveis à medida que a narrativa avança. Se, por um lado, La Ley del Corazón 2 consegue sustentar uma estrutura envolvente e diversificada, por outro, nem sempre demonstra o mesmo cuidado ao concluir as histórias que apresenta. São ausências que não chegam a comprometer a experiência de maneira decisiva, mas que poderiam ter sido evitadas com um planejamento narrativo mais consistente, proporcionando aos personagens e ao público despedidas mais satisfatórias.

Parte técnica

É sempre um prazer acompanhar uma produção que demonstra tanto esmero em sua realização audiovisual. Em La Ley del Corazón 2, fica evidente o cuidado por trás das câmeras, desde a escolha da fotografia e a composição dos enquadramentos até a construção de uma trilha sonora bonita e envolvente, que contribui para a atmosfera das cenas.

A produção recorre, em determinados momentos, a uma fotografia com tonalidades azuladas, conferindo maior sobriedade a algumas sequências. Em outras ocasiões, porém, essa tonalidade é suavizada, proporcionando maior conforto visual, especialmente nas cenas internas e naquelas gravadas em estúdio. Essas escolhas ajudam a estabelecer diferentes atmosferas sem comprometer a identidade visual da novela.

Tons azulados colorem a fotografia da novela


Também merecem destaque os cenários, sobretudo os ambientes do escritório Zambrano, Domínguez e Associados e a sala de audiências, espaços recorrentes ao longo da narrativa. Por serem cenários tão presentes na trama, sua composição e organização contribuem para a construção da identidade visual da produção, tornando o universo jurídico mais familiar ao espectador. No conjunto, a direção de arte, a fotografia e os demais elementos técnicos demonstram um cuidado que valoriza a experiência de acompanhar a novela.

Atuações

La Ley del Corazón 2 conta com um elenco extremamente competente, cujos integrantes esbanjam talento, química e carisma. Gosto particularmente da abordagem mais naturalista adotada pelos intérpretes na construção de suas personagens, com expressões, gestos e reações que conferem espontaneidade às cenas. Essa escolha favorece a verossimilhança da narrativa e torna até mesmo situações cotidianas, como uma simples conversa entre amigos ou colegas de trabalho, mais autênticas e envolventes. Como resultado, o público consegue estabelecer uma conexão mais próxima com os personagens e suas histórias.

Um elenco de MILHÕES


Entre os destaques, vale mencionar as interpretações seguras de Laura Londoño, Luciano D’Alessandro, Lina Tejeiro, Mabel Moreno, Iván López, Rodrigo Candamil, Juan Pablo Barragán, Judy Henríquez como Carmen, numa interpretação magistral, e Helena Mallarino, que contribuem, cada um à sua maneira, para a consistência do conjunto. Além disso, a chegada de nomes de peso, como Alejandra Borrero, Jorge Cao e Fernando Arévalo, enriquece ainda mais o elenco, acrescentando experiência e presença cênica à produção.

Comédia é um dos elementos do folhetim


O grande mérito das atuações está justamente na capacidade de equilibrar emoção e naturalidade, sem recorrer excessivamente a interpretações carregadas ou artificiais. Essa harmonia entre os integrantes do elenco fortalece as relações construídas ao longo da história e ajuda a sustentar tanto os momentos de maior intensidade dramática quanto as situações mais leves e descontraídas. É um trabalho coletivo que merece reconhecimento e que contribui significativamente para a qualidade da novela.

UM LUXO!


Veredito: La Ley del Corazón 2 preserva todo o carisma da temporada anterior e soma novos rostos e enredos que fortalecem a narrativa, além de estabelecer um eixo dramático mais forte, envolvente e conclusivo. No meu tribunal, essa continuação foi inocentada com êxito.

AVALIAÇÃO FINAL

Roteiro e argumentação: (4,0/4,0)
Personagens e atuações: (3,0/3,0)
Qualidade técnica: (2,0/2,0)
Direção e ritmo:(1,0/1,0)

Nota final: 10,0/10,0

P.S. A trilha sonora dessa novela é outro show a parte, com destaque para Me Llamas do Piso 21 que mais uma vez é o tema principal.




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