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Ficções na TV brasileira: existe limite entre o real e o imaginário?

O Clone, novela de sucesso dos anos 2000 (Foto: Divulgação/Rede Globo)


Introdução

Este ano decidi que veria um clássico da dramaturgia brasileira, O Clone, melodrama escrito por Glória Perez em 2001, e reprisado várias vezes na Rede Globo e Canal Viva nos últimos anos. Um marco na TV do Brasil. Ainda estou no começo do folhetim, mas gosto de acompanhar comentários de pessoas que assistiram a trama antes de mim, ou até mesmo de quem está vendo no momento. Dito isso, foi lendo opiniões nas redes sociais que me deparei com um dilema: existe limite entre real e imaginário?

Novelas nacionais e a barreira do tempo 

Nos últimos 5 anos, novelistas do Brasil têm se deparado com um fenômeno recente, mas muito perigoso: o cancelamento. Tramas queridas pelo público passaram a ser julgadas por um filtro politicamente correto. Tudo aquilo que é condenado, ameaça a memória e destrói toda a magia da FICÇÃO. Porém, vale mencionar que esse "cancelamento" tem atingido só produções nacionais. Ou seja, aquilo que vem de fora (leia-se United States), mesmo não satisfazendo as ideologias contemporâneas, é praticamente anulado de julgamentos e lixamentos nas redes sociais. Por que será? Fica a reflexão.

Mulheres Apaixonadas (2003) e Pretty Little Liars (2010) trataram dos mesmos temas, porém só a primeira é julgada (Foto: Montagem/Foco na Dramaturgia)


É bem verdade que a nossa sociedade apresentou mudanças nos últimos 10, 20 anos. Ainda assim, certos comportamentos ainda estão presentes, querendo ou não. Portanto, para mim, é absurdo alguém querer condenar algo com a desculpa de "os tempos mudaram". Embora isso tenha algum fundo de verdade, a questão aqui é que o ser humano continua o mesmo.

Ficção não é vida real 

O segundo ponto é bem claro. A telenovela é uma obra ficcional sem compromisso com a realidade. Portanto, não tem obrigação alguma de obedecer certos padrões sociais. O que acontece é que para gerar identificação com o público, no geral, é preciso trazer um pouco do cotidiano para dentro do enredo. Mas não se pode confundir. Ficção ainda é uma história imaginária, onde aqueles personagens não existem e não representam nenhuma ameaça (não deveriam).

Para completar, atualmente, vejo muita cobrança em cima das telenovelas. Uma pressão sem sentido, uma vez que colocam essas produções como se elas existissem para "educar a sociedade". Educação se constrói no coletivo, no dia-a-dia, e não através de um enredo fictício. 

"Esse diálogo não cabe mais nos dias de hoje". "Esse personagem é muito problemático". "Essa trama envelheceu mal". A única coisa que envelhece somos nós seres humanos feitos de carne e osso. Enquanto envelhecemos e a vida vai diminuindo, tem pessoas causando barulho por causa de uma cena de novela feita no início do século atual ou passado. Talvez se a nossa atenção estivesse nos problemas reais, as soluções para o nosso mundo problemático seriam mais óbvias.

Conclusão

Portanto, acredito que discussões como essa nem deveriam existir. É algo tão banal para ter que ser explicado parágrafo por parágrafo. Sou a favor do debate, e acho que as novelas proporcionam isso, mas também há de se ter consciência que são obras audiovisuais - e de ficção - feitas com o propósito de entreter. 

Porém, se ainda a novela X ou Y soa antiquada e problemática demais, talvez não seja o seu tipo de produto. Até porque não podemos esquecer que a telenovela é um gênero que conversa com certos públicos, e não com um todo. Curtam o que gostam, e deixem quem gosta também curtir igualmente. Respeitar o espaço de cada um é apenas um passo, e assim como uma casa é feita de tijolos, a vida é um amontoado de pequenas coisas, porém jamais insignificantes.

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