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Por que as novelas turcas têm uma edição diferente no Brasil?

Yargi: Segredos de Família, nova aposta turca do streaming da WarnerMedya-Discovery (Foto: Divulgação/Madd Entertainment)


Recentemente, Yargi: Segredos de Família debutou no catálogo da HBO Max e alugou um tríplex na cabeça dos fãs do melodrama: por que os capítulos estão menores? Este questionamento é válido, porém não é uma novidade! Desde que a Turquia começou a exportar suas ficções televisas para outros países, a edição é diferente. Portanto, TODAS as novelas turcas adquiridas para exibição em streaming/tv aberta/tv fechada terão este formato. Nesse caso, fica a critério da emissora/cliente exibir os episódios na arte padrão ou numa maior duração. 

Por que isso acontece?

Na Turquia cada capítulo contém cerca de 2 horas de duração em média, e são exibidos apenas uma vez na semana. É como se fosse uma maratona (binge watching) dos capítulos diários que as emissoras aqui no Brasil exibem de segunda a sábado. Historicamente, a indústria de TV no país otomano funciona dessa forma. Antes, os episódios eram um pouco menores – com arte em torno de 90 min. Todavia, devido ao fenômeno de vendas no exterior, eles resolveram aumentar este número para ganharem mais dinheiro com horas adicionais. 

Além disso, o padrão comercial para TV aberta é que os programas contenham em média 1 hora de duração (contando com intervalos comerciais). Inclusive, nos Estados Unidos isso é uma regra: nenhuma série de TV passa dos 45 minutos de duração por episódio. Por isso os capítulos das dizileri (plural de dizi) são divididos – não cortados – ou seja, para se adequarem a este formato. 

Yargi é vendida para o mercado externo numa versão diferente da que vai ao ar na Turquia (Foto: Reprodução/Madd Entertainment)

Essa estratégia não é exclusiva da Turquia. No México todos os capítulos já são gravados seguindo este formato, enquanto a Rede Globo “enxuga” suas tramas cortando (agora sim) tramas paralelas, dando assim mais evidência ao núcleo principal para os capítulos disponibilizados no exterior. 

Ademais, vale lembrar que os clientes já adquirem os episódios nesse formato. Isto é, se houve algum problema de edição, a culpa é total da distribuidora responsável. Importante mencionar isso pois a HBO Max e o Globoplay tem sido alvos de ataques de fãs desesperados, os quais alegam que os streamings estão “cortando” as novelas. Fake News!

Vantagens da versão internacional

Na Turquia, todas as ficções televisivas - para a TV aberta (importante especificar) - são acompanhadas pelo RTÜK (Conselho Supremo de Rádio e Televisão), assim obedecendo a uma série de regras para irem ao ar. Dentre elas estão algumas bem controversas como beijos limitados; sangue, bebidas alcoólicas e objetos pontudos em situação de perigo censurados com “borrões” na tela. 

Contudo, na versão internacional essa censura é derrubada. Sendo assim, os “borrões” (blur) somem, e algumas cenas adicionais podem ser incluídas dependendo da boa vontade da distribuidora. Por exemplo, Hercai, Sadakatsiz e Menajerimi Ara são apenas algumas das produções turcas que possuem cenas extras na versão para o exterior. 

Desvantagens da versão internacional

Como os episódios são divididos, os ganchos originais acabam ficando perdidos no meio da edição. Além disso, nem sempre o desfecho do capítulo na versão de 45 min é um momento pensado para provocar curiosidade. Pelo contrário, na maioria das vezes o episódio encerra numa cena completamente aleatória. Uma pena! 

Além disso, alguns editores pecam na ausência de cuidado na hora de editar. Sendo assim, não se espante com cortes bruscos de instrumentais, ou de cenas. Na humilde opinião de quem vos escreve, as melhores distribuidoras no quesito edição são a Inter Medya (Terra Amarga) e a Global Agency (Mãe). 

Novelas ou séries?

Acredito que esta dúvida confunde desde o fã mais antigo até o mais novo das produções turcas. Porém, a resposta para isso está numa questão cultural e histórica. 

Aqui no Brasil, por cultura, diferenciamos os produtos feitos localmente dos produzidos nos Estados Unidos, por exemplo. A ideia de série estava atrelada a um produto com menos episódios, e narrativas procedurais (o tal caso da semana). Contudo, devido ao processo de transmidiação muito em alta, hoje em dia fica difícil dar nome a um produto televisivo, pois as ficções tornaram-se um emaranhando de técnicas e narrativas comuns a todos os formatos. Inclusive, alguns países da América Latina como Argentina e Chile já praticamente aboliram o termo “telenovela”, usando no lugar “série de TV” e “telessérie”, respectivamente. 

Binbir Gece, o folhetim turco responsável por impulsionar as produções euro-asiáticas na América Latina (Foto: Divulgação/Band)


Na Turquia, até os anos 70/80, o público turco só consumia seriados estrangeiros, como telenovelas e soap operas. Segundo Arzu Öztürkmen em seu artigo “Turkish Content: The Historical Rise of the Dizi Genre”, o gênero Dizi é originário da influência da televisão estrangeira na TV turca. Ou seja, as séries de televisão estrangeiras de muito sucesso como Los Ricos También Lloran (TRT1, 1989) e Escrava Isaura (TRT1, 1985), foram as precursoras ao ensinar o público turco como “assistir televisão”. Elas também estabeleceram o desejo por narrativas particulares para as dizileri, o que consistia basicamente em histórias clássicas, romance, comédia e melodrama.

Culturalmente, na Turquia e em alguns países da Europa como Espanha e França, não existe essa divisão de “série de TV” e “telenovela”. Na verdade, todas as ficções televisivas são conhecidas como seriados – diários e semanais. Inclusive, uma visão que satisfaz o conceito real de “série” (sequência), que pode ser uma série de livros, de músicas, etc. Portanto, a “série de TV” seria toda narrativa maior dividida em partes (episódios), o que inclui a telenovela, a soap opera, os K-dramas, as dizileri, dentre outros gêneros. 

Protagonistas de Ask-ı Memnu, um dos maiores clássicos da dramaturgia turca (Foto: Divulgação)


Dito isso, apesar de no país dos Sultões, as dizileri serem traduzidas literalmente como “séries de TV”, aqui na América Latina elas chegam em um formato que se aproxima mais da nossa telenovela. Por isso, já é costume no continente latino chama-las assim, pois desde que começaram a ser exportadas elas vêm batizadas com este título. 

A troca de termos se deu nos últimos anos com o aumento de fãs que legendam estes produtos ainda no ar na Turquia. Como as traduções são feitas ao pé da letra – sem grandes adaptações – tornou-se corriqueiro o novo termo, o que na verdade acaba só confundindo mais o público. 


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